Central de Material e Esterilização: entenda mais sobre o ‘coração’ hospitalar

Conhecida como “coração hospitalar”, a Central de Material e Esterilização é responsável por processar todos os artigos médicos e instrumentais dos setores de um hospital – cuidando da limpeza, acondicionamento, esterilização e distribuição dos mesmos. Da porta de entrada à sala de emergência, a enfermagem necessita de algum material de origem da CME como kit sutura, bandeja de punção, dispositivos cirúrgicos descartáveis como os cateteres, materiais permanentes como as caixas cirúrgicas com instrumentais específicos de aço inox ou algum outro tipo de material que seja passível de esterilização. 

Fundamental em todos os aspectos de segurança e higiene, a CME desenvolve um papel importante: mitigar riscos de infecção hospitalar e promover melhor segurança assistencial. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 234 milhões de pacientes são operados por ano em todo o mundo; mas um milhão de pessoas morrem em decorrência de infecções hospitalares e 7 milhões apresentam complicações no pós operatório – o que reforça ainda mais a atuação e responsabilidade da enfermagem nesse setor.  

Para Roberta Poubell Dourado Costa, supervisora da CME do Americas Medical City no Rio de Janeiro (RJ), a conscientização de um ambiente limpo e seguro é fundamental para quem está na ponta assistencial. Responsável por avaliar todas as etapas do processo e equipe do setor, ela desenvolve um trabalho em conjunto com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar na elaboração de protocolos operacionais e treinamentos dos profissionais da enfermagem.

“Todas as áreas assistenciais de um hospital têm itens reprocessados e que passam pela CME. Nosso trabalho é em conjunto com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) para construção e aprovação de protocolos de segurança, promovendo a prevenção de infecção ao entregar materiais limpos, desinfetados e esterilizados com todas as garantias e testes existentes no mercado, qualificação correta de equipamentos e validação dos processos”, conta Roberta. 

Além de gerir uma equipe de 40 profissionais entre técnicos(as) e enfermeiros(as), a supervisora fica em contato direto com os gestores de cada área do hospital para que a dinâmica de trabalho e eventuais conflitos sejam solucionados. Por se tratar de uma limpeza minuciosa, diversos testes são feitos nos equipamentos – como o ATP, que mensura a quantidade de sujidade do instrumental. Além dele, é feita uma coleta de amostra para averiguar se a limpeza está dentro do padrão exigido. 

“Todos os equipamentos utilizados, como desinfectador, lavadora ultrasônica, autoclave e seladora de grau cirúrgico, passam por uma qualificação de desempenho com técnicos especializados em nosso setor que avaliam o equipamento como um todo. São feitos também testes e manutenções preventivas e corretivas no dia a dia para avaliar as peças em si”, afirma a supervisora de enfermagem.

Apesar de ser uma área vital ao hospital, a CME precisa ocupar mais espaço nas grades curriculares, segundo Roberta. “Existe um déficit de profissionais nessa área porque tanto a graduação de Enfermagem quanto o curso técnico não fornecem subsídios para que as pessoas conheçam, entendam e queiram atuar no setor. A trajetória obrigatória do(a) enfermeiro(a) no Centro Cirúrgico – setor que nos ajuda a entender o que é utilizado em uma cirurgia e o preparo específico – o faz expandir o conhecimento e encontrar a CME no meio do caminho”, explica. 

Quem atua na CME é apaixonado por instrumental e tecnologia, conta a supervisora. “Trabalhamos hoje com uma tecnologia incrível e, nos últimos dez anos, houve um avanço tecnológico grandioso que nos exige capacitação constante para acompanhar essa evolução. Manuseamos equipamentos específicos e essenciais – e gostar da linguagem técnica é primordial para um setor seguro”, finaliza Roberta.

#RelatosDeUmEnfermeiro: eu luto contra o câncer, mas não é ele quem vai me derrubar

“Ao fazer o autoexame de mama no início de 2020, notei um nódulo no seio esquerdo e, ao realizar o exame de imagem, o diagnóstico confirmava o câncer; um subtipo agressivo denominado como triplo-negativo (com maior chance de retorno da doença depois de um prévio controle, levando à metástase e a uma sobrevida menor do que os outros tipos de câncer). Poucos dias depois, iniciei o tratamento de quimioterapia, mas com o aumento significativo do nódulo, precisei fazer a retirada total das mamas e esvaziamento da axila esquerda. 

Durante a cirurgia da mama, o nódulo sangrou muito e o procedimento com duração prevista de uma hora levou seis, possibilitando apenas a retirada do quadrante. A biópsia do nódulo confirmava a gravidade da doença e precisei seguir com o tratamento quimioterápico (dessa vez oral) até a segunda cirurgia para a retirada completa das mamas. Ao todo são oito comprimidos diários – quatro pela manhã e quatro pela tarde – por seis meses em ciclos de quinze dias, para, então, iniciar o processo de radioterapia. 

Quando me olhei no espelho e vi o cateter Port-A-Cath (dispositivo utilizado para administração de medicamentos e coleta de sangue em pacientes oncológicos) em meu pescoço, a vontade de arrancar e acabar com aquilo em um momento de desespero foi grande. Parei, fechei os olhos, busquei o ar e respirei fundo; deixei a água escorrer pelo meu corpo em busca de autocontrole até a angústia e ansiedade passarem. Naquele momento eu entendi o quanto podemos controlar nossa mente e que eu poderia ser mais forte do que imaginava. 

Não é um diagnóstico fácil de receber, confesso. Me senti atordoada, sem saber o que fazer, mas, desde que me tornei mãe, descobri essa força inimaginável habitada em mim. No início do tratamento, voltava para casa desolada – mesmo sem os temidos efeitos colaterais. Só quem passa pela quimioterapia entende o que é o processo; as dores por todo o corpo e o sofrimento. Passado um tempo, coloquei na cabeça que o câncer não me derrubaria e, desde então, sigo firme, vivendo um dia de cada vez e sem ansiar pelo amanhã.

A enfermagem me deu força para enfrentar o processo. Nós, como profissionais da área – bem ou mal – sabemos os riscos, a possibilidade da metástase e todas as possíveis etapas da doença. A profissão me ajudou e ajuda a enxergar a força que temos como humanos e me incentiva a mostrar aos demais que o câncer ou qualquer outra doença podem ser enfrentadas de uma maneira diferente, sem associar à morte. 

Carrego o apoio da minha família e amigos como inspiração. Eu ainda luto contra o câncer e sei que tudo pode acontecer, mas optei por enxergá-lo como uma gripe e que logo passará. E às mulheres que enfrentam o câncer hoje, eu digo: vivam a vida como se não houvesse o amanhã! Não se preocupem demais. Hoje estamos bem e amanhã talvez não estejamos. O câncer mata, sim, mas o que você puder fazer hoje para ajudar o próximo, orientar, escutar, abraçar ou dizer o quanto você o ama, faça isso. Respira mais um pouco e ‘cava’ no fundo do teu peito porque existe uma força infinita dentro de nós”.

Entenda o papel fundamental dos profissionais de enfermagem que atuam na saúde do idoso

A população idosa aumenta significativamente a cada ano no mundo e, no Brasil, representa 13% dos cidadãos – somando mais de 23 milhões de indivíduos acima dos 60 anos segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ainda segundo uma pesquisa da QualiBest em 2015, 77% dos brasileiros temem a velhice devido aos problemas de saúde associados à idade – mas o papel da saúde primária está justamente em promover maior autonomia com segurança e qualidade aos idosos.

O cuidado individualizado faz parte da rotina da enfermagem na assistência de pacientes de qualquer idade e circunstância, mas os idosos requerem maior compreensão desses profissionais. A enfermeira Jane Cristina da Silva atua no setor de Endoscopia da Unidade Americas Medicina e Saúde em São Paulo (SP) e trabalha há bastante tempo com a população acima de 65 anos. Responsável pela integridade dos pacientes desde a chegada à unidade até o término do exame, ela conta que a atenção com os mais velhos precisa ser redobrada.

“Nosso papel é receber e preparar os pacientes de forma adequada e individualizada para cada procedimento. O exame de colonoscopia, por exemplo, exige uma preparação específica como uso de medicação prévia, dieta restritiva e, em alguns casos, é preciso interná-los para evitar risco de desidratação, ânsias de vômito ou hipotensão durante a preparação. Toda e qualquer pergunta ou informação antes de um procedimento é ainda mais importante quando falamos de pessoas em situações mais frágeis”, conta Jane. 

Orientar e explicar sobre determinados procedimentos são desafios na hora de instruir os pacientes da terceira idade, afirma Jane. “O idoso requer um cuidado maior e um olhar diferente por tudo o que viveu. Geralmente, são pessoas resguardadas e mais frágeis em um nível orgânico e que possuem comorbidades, então é preciso trabalhar um outro plano de cuidado”, diz a enfermeira.

Com experiência na assistência de pacientes mais novos, a enfermeira diz que é preciso desconstruir crenças no cuidado com os mais velhos. “Naturalmente, os idosos possuem questões motoras e exigem um preparo mental maior da enfermagem. São indivíduos com costumes enraizados, cultura própria e os profissionais da saúde precisam entender e compreender as ideias, pensamentos e todo o processo de vida pelo qual eles passaram”, completa.

“Não são os idosos que precisam nos entender e sim nós, profissionais da saúde, que devemos compreender e respeitar o momento de vida deles”, lembra Jane. “Existe um conflito de gerações e nosso papel é instruir, orientar e mostrar a importância de determinadas ações, mostrando o benefício e a longevidade que podem trazer – sempre de forma calma, clara e tranquila”, finaliza.

Conheça o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar e entenda sua importância

Por se tratar de um ambiente vulnerável, pacientes internados estão mais suscetíveis ao contato com microorganismos existentes devido ao uso de alguns dispositivos invasivos como a sonda, cateter, ventilador mecânico, uso de antibióticos, procedimentos cirúrgicos – e a enfermagem tem papel fundamental no controle de riscos. Aí que entra, então, o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, responsável por instituir medidas preventivas e de segurança em um hospital com objetivo de reduzir riscos de infecção e promover a segurança assistencial.

Para Daiane Patricia Cais, responsável pelo SCIH do Americas Serviços Médicos, que integra o UnitedHealth Group Brasil, o setor é essencial para a segurança do paciente. À frente de 16 unidades hospitalares, criando e acompanhando processos de melhorias, a enfermeira afirma que a integração e comprometimento das equipes – principalmente das lideranças – são a chave para mitigar riscos e infecções.

“Nosso papel é criar e controlar protocolos e processos partindo do princípio de que cada dispositivo e ambiente possuem um protocolo próprio, além do controle técnico e comportamental dos responsáveis na ponta assistencial. Sozinhos, não controlamos infecção. Aliás, o SCIH não controla infecção: quem faz a prevenção é quem está à beira do leito – então nosso maior objetivo é fazer com que as equipes compreendam os seus papéis na construção de um ambiente seguro ao paciente”, conta Daiane.

Cada hospital possui um SCIH local composto por uma equipe de médicos e enfermeiros responsáveis por monitorar, capacitar, analisar e divulgar os dados e inferências. A partir dos resultados da coleta de dados de infecção e do acompanhamento de pacientes, é estabelecida uma ação de prioridade em conjunto com o setor de Educação Continuada para determinada unidade, segundo Daiane.

“Fazemos um monitoramento constante e as visitas técnicas acontecem em todas as áreas de apoio do hospital – no refeitório, a água que o hospital recebe, o laboratório que presta serviço, até a cafeteria que tem circulação alta de visitantes. Oferecemos meios para capacitar os colaboradores, fazemos estatísticas para apontar os resultados e o reforço positivo (comemorar os bons resultados) é fundamental no processo para que entendam a importância do setor de Controle”, afirma a enfermeira. 

A boa relação do SCIH com quem está na ponta assistencial e o engajamento das lideranças para que entendam os resultados da assistência e infecção são próprios de cada setor (e não do Controle) – e são essenciais para construir uma área segura para o paciente, conta Daiane. “Nosso maior desafio como corporativo é o alinhamento das medidas preventivas frente a tantas diferenças entre as regiões do país. São diversas unidades hospitalares com profissionais, comportamentos e capacitações diferentes e é preciso ser incansável na busca de melhorias”, finaliza.

#RelatoDeUmEnfermeiro – Precisamos vencer o tabu contra o câncer

“Em 2006, ingressei no setor de Oncologia Infantil do Hospital Next Butantã em minha primeira experiência profissional como enfermeira. Com seis meses de casa, fiz exames de rotina – como de costume – e descobri um tumor no ovário direito já com alguns focos no esquerdo. Foi um choque. Até então não tinha qualquer sintoma, dor ou anormalidade no fluxo menstrual e fiquei muito preocupada – com a doença em si e com o fato de ser nova na instituição e profissão. 

Foram 20 dias entre o processo de diagnóstico e cirurgia. Por se tratar de um tumor limítrofe (com células malignas e benignas), a equipe médica optou por retirar os dois ovários e o tratamento quimioterápico foi descartado. Foi um período de muita ansiedade e insegurança. Não precisei me afastar do trabalho, pois me sentia bem fisicamente e não deixei a situação atrapalhar minha jornada. Foi uma forma de superar a doença, além de todo apoio recebido pela supervisão e equipe médica do Hospital Next Butantã na época.

Passei dez anos em acompanhamento oncológico, realizando exames de imagem a cada seis ou oito meses e fui liberada. Dois anos depois da alta, em 2018, a história se repetia. Com dores na coluna, procurei um ortopedista; associei a dor à prática de atividade física, mas o câncer surgia em mim novamente. Era uma recidiva do tumor, com as mesmas características do ovário, atrás da região da apêndice. Passei por duas outras cirurgias e a histerectomia total do útero foi necessária para evitar um terceiro diagnóstico futuro.

Mesmo com o histórico da doença e a vivência na enfermagem, o segundo diagnóstico foi ainda mais difícil. A profissão facilitou a valorização da minha dor, de me tocar, de observar meu corpo, mas foi difícil controlar o emocional. O diagnóstico precoce foi e é fundamental para uma perspectiva positiva de sobrevida e qualidade de vida para quem enfrenta o câncer, e acredito que o autocuidado foi fundamental para que eu driblasse o câncer. 

Existe um tabu onde as pessoas associam a doença à morte. ‘Você tem câncer e vai morrer’… Mas hoje você consegue ter uma qualidade de vida com acompanhamento médico e suporte psicológico e até pacientes em cuidados paliativos conseguem ter qualidade de vida. A morte não está determinada quando há diagnóstico de câncer. Por isso, o autocuidado é fundamental e deve ser priorizado. Se olhar, se perceber, valorizar a dor e buscar suporte profissional em prol da saúde é essencial no combate ao câncer.”

A importância da saúde mental da enfermagem em tempos de pandemia

Rupturas no sistema de saúde, crise econômica e colapso social. A pandemia do Coronavírus afetou a vida de bilhões de pessoas em diversos aspectos e é difícil até mesmo calcular os danos causados pelo vírus SarS-CoV-2. Mas, entre eles, a saúde mental foi considerada a questão de maior prejuízo na esfera global – e, segundo uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde entre julho e agosto deste ano, a população interrompeu o tratamento (e a procura por) devido à crise da COVID-19, o que gerou alerta sobre a importância da continuidade e preservação da saúde mental. 

Ainda segundo a OMS, os países gastam apenas cerca de 2% do orçamento do setor em saúde mental. E outros números preocupam: quase 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais e uma morre a cada 40 segundos por suicídio no mundo. Com o cenário alarmante, a preocupação com o bem-estar emocional dos profissionais da saúde aumentou pela intensa carga de trabalho (por falta de profissionais) e o alto risco de contaminação por consequência do Coronavírus.

Responsáveis pelo cuidado e assistência da população em todas as esferas da saúde, a enfermagem foi – e ainda é – a grande protagonista no combate à COVID-19. Acostumados e preparados para enfrentar doenças infectocontagiosas de maneira geral, enfermeiros(as), técnicos(as) de enfermagem e auxiliares precisaram aprender a lidar com a própria mente nessa pandemia. A ansiedade, medo e fobia marcaram presença na vida desses profissionais e, através de auxílio das instituições e estratégias pessoais, eles seguem enfrentando a COVID-19 e a si mesmos. 

“O desafio inicial foi entender a doença para enfrentá-la de cabeça erguida e nos custou saúde mental e emocional para lidar com toda a situação”, conta a supervisora de enfermagem Fabíola Felipe de Melo. “Nós, profissionais da saúde, falamos muito em virulência e sua capacidade de transmissão, mas a potência de contágio do Coronavírus foi o que assustou a todos. Estou na enfermagem há 22 anos e nem a gripe H1N1 foi tão assustadora e cruel quanto a COVID-19 foi e ainda é para o mundo”, completa.

Fabíola atua no Pronto-Socorro Adulto, Infantil e setor de Tomografia do Hospital Next Butantã em São Paulo (SP) e é responsável por uma equipe de 75 profissionais entre enfermeiros(as), técnicos(as) e auxiliares de enfermagem. Com a alta demanda de trabalho e gestão emocional dos colaboradores devido à crise, a supervisora percebeu o nível de ansiedade e estresse subirem – e precisou criar estratégias para não adoecer mentalmente. 

“O medo de levar o vírus para casa me angustiava e por várias vezes me vi como um ‘estopim’ dentro do meu próprio lar. Passei a usar florais com apoio de uma naturopata e isso auxiliou muito ao longo dos meses. A esteira ganhou espaço em casa e a TV permaneceu desligada por um longo período. Era insustentável assistir aos noticiários. Tive que buscar soluções além do suporte recebido no Next Butantã para preservar minha saúde mental e emocional e seguir na luta para motivar minha equipe e assegurar o bem-estar e cuidado dos pacientes”, comenta Fabíola.

A pandemia e uma nova humanidade

Com o passar dos meses, Fabíola sentiu o nível de sua ansiedade diminuir e a televisão voltou a fazer parte das horas de lazer – sempre com cautela e filtrando as notícias. Passou a compreender também a importância do autocuidado e afirma que a pandemia veio para ensinar algo maior à humanidade. 

“Aprendi a olhar mais nos olhos das pessoas e perceber o que aquele olhar dizia sob a máscara; procuro ouvir mais o próximo e me sinto mais esclarecida. Sofremos muito com tudo que vimos e vemos acontecer na pandemia, mas acredito que ela serviu para desenvolver o lado humano de todos, mostrando a importância da empatia com o próximo”, conta Fabíola.

Reflexiva, a supervisora de enfermagem finalizou com um recado: “O uso da máscara reforçou a importância de falarmos menos e ouvirmos mais, de olhar no olho. Mas, acima de tudo, nos mostrou o quanto somos frágeis. Às vezes fazemos questão de pequenas coisas e, por tão pouco, deixamos de falar com o outro. E essa pandemia deixa uma reflexão: será que vale a pena não pedir desculpa? Discutir por pouco? Ou não ir atrás do outro? A vida é tão passageira”, finaliza.

Prevenção contra o câncer de mama: a enfermagem também precisa de cuidado

Há mais de três décadas o mês de outubro é dedicado à saúde da mulher com a campanha Outubro Rosa – com objetivo de salientar a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama e colo do útero. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, o câncer de mama é o segundo mais incidente nas mulheres em todo Brasil – depois dos tumores de pele não melanoma – e, quando descoberto no início, tem 95% de chance de cura.  

A saúde primária exerce papel fundamental na prevenção e no combate ao câncer. A postos 24 horas, a enfermagem oncológica orienta, acolhe e acompanha mulheres que enfrentam a doença, prestando suporte físico e emocional a elas. Segundo Janaína Lopes Eleutério, enfermeira especialista em oncologia do Ambulatório de Oncologia do Hospital Paulistano em São Paulo (SP), a empatia é fundamental no processo de cuidado com pacientes oncológicas.

“Nós vemos o sofrimento de pacientes ao receberem o diagnóstico e a primeira pergunta feita é sobre a queda do cabelo. Existe uma mudança de estrutura física, a vida sexual sofre alteração, a autoimagem fica prejudicada e o nosso desafio é conseguir acolher essas pacientes, tendo empatia e entendendo o sofrimento de cada indivíduo para que possamos ajudá-las a enfrentar um momento tão conturbado quanto o câncer”, conta Janaína.

Com objetivo de acolher pacientes que chegam diagnosticadas (ou com a biópsia) no Ambulatório, o Hospital Paulistano conta com um coach oncológico para oferecer suporte e apoio emocional às mulheres. “Sempre incentivamos e conversamos sobre o diagnóstico com cada paciente para reforçar os cuidados e protocolos da quimioterapia. Essa atenção e cuidado individualizado são fundamentais no processo e para a saúde emocional de cada uma”, afirma a especialista. 

Mas, além de prestar suporte para a saúde das pacientes, a enfermagem também precisa de cuidado. “Vemos em outubro um movimento grande de colaboradoras para realizar exames e promover o autocuidado. Essa procura é fundamental para nós também, que vivemos diariamente o câncer e, muitas vezes, esquecemos da própria saúde. Precisamos servir de exemplo e força às colegas e pacientes”, diz Janaína. 

Alerta com a própria saúde, a especialista em oncologia acredita que campanhas como a do Outubro Rosa precisam de atenção o ano todo. “Temos colegas que enfrentam o câncer de mama e de ovário; e são pessoas jovens. Recentemente, recebemos uma paciente grávida de gêmeas que descobriu o câncer no terceiro mês de gestação e, graças ao diagnóstico precoce, teve desfecho positivo. Hoje, a mãe e os bebês estão saudáveis”, conta ela.

“Sabendo da importância do autocuidado para a saúde feminina, nossa maior missão é enfatizar todos os dias o diagnóstico precoce para que o tratamento seja o menos agressivo possível”, completa Janaína.

Estomaterapia: conheça a especialidade da enfermagem no atendimento a lesões

A estomaterapia é uma especialidade da enfermagem voltada para o cuidado de pacientes com estomias, feridas (agúdas e crônicas), fístulas e incontinência anal e urinária. O enfermeiro ou enfermeira estomaterapeuta atua na prevenção e no tratamento de lesões em prol da qualidade de vida, integridade da pele e bem-estar do paciente. Além do cuidado assistencial preventivo, o acolhimento e promoção do bem-estar ressaltam a importância desses profissionais.

Para Elen Lopes Gonçalves Alves, enfermeira estomaterapeuta do Hospital Pasteur, no Rio de Janeiro (RJ), a especialidade é fundamental no processo de cuidar. Responsável por analisar e atender pacientes de todas as áreas do hospital, ela faz parte do projeto Comissão de Curativos e Cuidados com a Pele, uma iniciativa do Pasteur que abre espaço para a área com objetivo de promover segurança, qualidade assistencial e de vida a pacientes. 

“Avaliamos se o paciente tem perfil para desenvolver uma lesão desde a admissão no hospital. A enfermagem em geral analisa o ‘todo’ e a estomaterapia atua na análise de riscos para prescrever a melhor conduta de prevenção e/ou tratamento para que não surjam lesões – ou que o devido tratamento aconteça em caso de desintegração da pele”, conta Elen. 

A enfermeira diz ainda que se identifica muito com esse universo com que trabalha. Na enfermagem há seis anos, Elen reforça também a importância do cuidado individual e do trabalho em equipe para que os processos de segurança sejam cumpridos com êxito.

“Existe uma equipe multidisciplinar por trás da assistência como, a dermatoterapia, cirurgião plástico, fisioterapeuta, farmácia, SCIH (Serviço de Controle de Infecção Hospitalar), nutrologia e nutrição. Costumo dizer que somos ‘amigos’ da enfermagem em busca do mesmo propósito: a melhor qualidade e segurança assistencial ao paciente”, afirma ela.

Os procedimentos utilizados na estomaterapia permitem que o tratamento ocorra beira-leito. Segundo Elen, há casos de pacientes internados por uma patologia ou diagnóstico que descobrem uma lesão por consequência da doença-base. 

“Muitos pacientes chegam com uma pneumonia, recebem o devido tratamento, recebem alta, mas são portadores de uma lesão ou uma ferida – e são orientados a permanecer no hospital. Fazemos a análise desses pacientes, classificamos e prescrevemos a melhor conduta, tudo com a possibilidade de fazer à beira-leito, otimizando o tratamento e proporcionando uma qualidade de vida melhor a eles”, completa. 

Recursos da estomaterapia

Com a enfermagem cada vez mais especializada, a estomaterapia conta com mecanismos próprios para um cuidado eficaz, como colchão pneumático – feito de ar para insuflar e desinsuflar em pontos estratégicos do corpo, mudança de decúbito de duas em duas horas, espuma siliconada em caso de saliência óssea (evitando abrir lesão) e Creme Barreira, com uma película protetora para que a urina não tenha contato com a pele, evitando dermatite ou fissuras na região. 

“Utilizamos todos esses mecanismos para o tratamento e prevenção e trabalhamos a conscientização com toda a equipe. Uma ferida simples pode virar uma lesão grave – e é preciso cuidar, ter sensibilidade e prever possíveis riscos. Hoje, minha maior meta é que não hajam lesões e que pacientes voltem à rotina sem nenhum trauma”, finaliza Elen. 

Reiki e enfermagem: saiba mais sobre o benefício da técnica na saúde primária

O Reiki é uma terapia complementar de origem japonesa que utiliza a imposição das mãos para transferência de energia de uma pessoa para outra – e acredita-se que os centros de energia do corpo (conhecidos como chakras), quando alinhados, são fundamentais para o equilíbrio e bem-estar. A técnica – reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como prática integrativa e complementar da medicina – faz parte da grade curricular da enfermagem e aponta uma série de benefícios aos profissionais da saúde que aderem à ela.

Respiração e meditação são as principais técnicas utilizadas na aplicação do Reiki, método que auxilia no combate às doenças psicossomáticas e emocionais, revitalização do organismo, redução de dores e tensões, quadro de depressão e traz outros benefícios (não substituindo o tratamento convencional). Para Fernando Spacassassi, supervisor de enfermagem do Hospital Ana Costa em Santos (SP), a terapia complementar pode proporcionar mais qualidade de vida aos colaboradores – o que impacta diretamente na qualidade assistencial de pacientes.

“A enfermagem exige muita atenção e esforço cognitivo dos profissionais pela série de atividades realizadas ao mesmo tempo. Precisamos de concentração máxima e isso vai além da esfera do cuidado: o autocuidado, equilíbrio emocional e a empatia são fundamentais em nosso trabalho, então o Reiki proporciona essa busca”, afirma Fernando. 

Interessado pela terapia complementar desde o início da graduação, Fernando implantou um projeto piloto de Reiki e meditação no Ana Costa com o objetivo de acolher e promover a saúde da enfermagem e demais colaboradores do hospital. Fundamentado em técnicas humanizadas utilizadas em grandes empresas do mundo corporativo, o projeto foi abraçado pelo setor de Capital Humano com duração inicial de três a quatro meses para entenderem a adesão. 

“Durante o horário de almoço as pessoas procuravam o que fazer e muitas vezes ficavam ociosas. Foi quando surgiu a ideia de tornar a pausa um momento de acolhimento, gerando bem-estar a todos. Logo no início, contei com a ajuda de uma biomédica do hospital que se voluntariou e mergulhou conosco no projeto”, conta o supervisor de enfermagem.  

A chegada da pandemia 

Com a pandemia do Coronavírus, o projeto foi pausado e os estudos e pesquisas precisaram ser interrompidos, mas Fernando criou a própria estratégia para seguir com o trabalho de forma segura fora do hospital. “O projeto teve uma aceitação muito boa por parte dos funcionários e com a crise da COVID-19, algumas pessoas me perguntavam quando o projeto retornaria. Decidi fazer lives diárias de meditação em minha conta do Instagram durante 60 dias e com isso promover o bem-estar não só aos colaboradores do Ana Costa, mas a quem quisesse participar”, conta. 

Com expectativa de retomar o projeto, Fernando aposta no sucesso da terapia rekiana. “A saúde da enfermagem é essencial para uma melhor assistência e precisamos estar bem para cuidar do próximo. Procuro ressaltar que o Reiki não é uma religião ou esoterismo e que tanto a terapia quanto a meditação são práticas sustentadas pela ciência, com artigos que explicam a eficácia de cada teoria”, finaliza.

Outubro Rosa: a enfermagem e seu papel fundamental na prevenção do câncer de mama e de colo do útero

O Outubro Rosa é um movimento internacional de conscientização para o controle do câncer de mama e, mais recentemente, de colo do útero. Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas 1,1 milhão de mamografias foram realizadas pelo SUS entre janeiro e julho de 2020 – número alarmante em relação ao período do ano anterior, 2,1 milhões. De acordo com o ministério, a redução na procura pelo exame tem a ver com a pandemia do Coronavírus – quando as mulheres evitaram os postos de saúde e unidades laboratoriais para o diagnóstico precoce.  

A enfermagem exerce papel fundamental na saúde da mulher e no encaminhamento de pacientes de primeira vez no diagnóstico do câncer. Mas para Débora Esteves Monteiro, supervisora de enfermagem do Americas Oncologia no Rio de Janeiro (RJ), o diagnóstico precoce é fundamental para a sobrevida e qualidade de vida. “Quanto mais cedo fazemos exames e nos cuidamos, maior chance de sucesso. Ninguém melhor do que nós mesmas para conhecer o nosso corpo e dizer o que há de diferente”, afirma Débora.

O tratamento postergado e o diagnóstico tardio podem resultar em uma série de complicações para quem enfrenta o câncer (de maneira geral) – e a qualidade de vida pode ser comprometida. “Quando a mulher é diagnosticada com câncer de mama, ela passará em algum momento por uma modalidade de tratamento – seja cirúrgico ou quimioterápico – e terá sua vida alterada”, explica a supervisora. 

“A gente enxerga o estigma do câncer com um significado negativo, associado à morte; e quando falamos do câncer de mama, a maioria dos protocolos têm a perda do cabelo associada. Isso tem um significado muito forte para a maioria das mulheres porque elas veem a doença na identidade; elas se veem com câncer”, diz ela.

Débora aponta que as questões emocionais da mulher precisam ser levadas em conta pela enfermagem durante o tratamento, equipe responsável pelo acolhimento e cuidado. “A retirada da mama tem uma representatividade muito grande na vida de uma mulher, e todas as questões emocionais precisam ser levadas em consideração. São mulheres que precisam de acolhimento e da escuta. Precisamos ter uma sensibilidade e entender o aquela pessoa necessita naquele momento e ter a palavra certa para fazer o processo o menos doloroso possível”, finaliza.