A importância da saúde mental da enfermagem em tempos de pandemia

O autocuidado e a saúde emocional são fundamentais para os profissionais da saúde na assistência e cuidado com o paciente

Rupturas no sistema de saúde, crise econômica e colapso social. A pandemia do Coronavírus afetou a vida de bilhões de pessoas em diversos aspectos e é difícil até mesmo calcular os danos causados pelo vírus SarS-CoV-2. Mas, entre eles, a saúde mental foi considerada a questão de maior prejuízo na esfera global – e, segundo uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde entre julho e agosto deste ano, a população interrompeu o tratamento (e a procura por) devido à crise da COVID-19, o que gerou alerta sobre a importância da continuidade e preservação da saúde mental. 

Ainda segundo a OMS, os países gastam apenas cerca de 2% do orçamento do setor em saúde mental. E outros números preocupam: quase 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais e uma morre a cada 40 segundos por suicídio no mundo. Com o cenário alarmante, a preocupação com o bem-estar emocional dos profissionais da saúde aumentou pela intensa carga de trabalho (por falta de profissionais) e o alto risco de contaminação por consequência do Coronavírus.

Responsáveis pelo cuidado e assistência da população em todas as esferas da saúde, a enfermagem foi – e ainda é – a grande protagonista no combate à COVID-19. Acostumados e preparados para enfrentar doenças infectocontagiosas de maneira geral, enfermeiros(as), técnicos(as) de enfermagem e auxiliares precisaram aprender a lidar com a própria mente nessa pandemia. A ansiedade, medo e fobia marcaram presença na vida desses profissionais e, através de auxílio das instituições e estratégias pessoais, eles seguem enfrentando a COVID-19 e a si mesmos. 

“O desafio inicial foi entender a doença para enfrentá-la de cabeça erguida e nos custou saúde mental e emocional para lidar com toda a situação”, conta a supervisora de enfermagem Fabíola Felipe de Melo. “Nós, profissionais da saúde, falamos muito em virulência e sua capacidade de transmissão, mas a potência de contágio do Coronavírus foi o que assustou a todos. Estou na enfermagem há 22 anos e nem a gripe H1N1 foi tão assustadora e cruel quanto a COVID-19 foi e ainda é para o mundo”, completa.

Fabíola atua no Pronto-Socorro Adulto, Infantil e setor de Tomografia do Hospital Next Butantã em São Paulo (SP) e é responsável por uma equipe de 75 profissionais entre enfermeiros(as), técnicos(as) e auxiliares de enfermagem. Com a alta demanda de trabalho e gestão emocional dos colaboradores devido à crise, a supervisora percebeu o nível de ansiedade e estresse subirem – e precisou criar estratégias para não adoecer mentalmente. 

“O medo de levar o vírus para casa me angustiava e por várias vezes me vi como um ‘estopim’ dentro do meu próprio lar. Passei a usar florais com apoio de uma naturopata e isso auxiliou muito ao longo dos meses. A esteira ganhou espaço em casa e a TV permaneceu desligada por um longo período. Era insustentável assistir aos noticiários. Tive que buscar soluções além do suporte recebido no Next Butantã para preservar minha saúde mental e emocional e seguir na luta para motivar minha equipe e assegurar o bem-estar e cuidado dos pacientes”, comenta Fabíola.

A pandemia e uma nova humanidade

Com o passar dos meses, Fabíola sentiu o nível de sua ansiedade diminuir e a televisão voltou a fazer parte das horas de lazer – sempre com cautela e filtrando as notícias. Passou a compreender também a importância do autocuidado e afirma que a pandemia veio para ensinar algo maior à humanidade. 

“Aprendi a olhar mais nos olhos das pessoas e perceber o que aquele olhar dizia sob a máscara; procuro ouvir mais o próximo e me sinto mais esclarecida. Sofremos muito com tudo que vimos e vemos acontecer na pandemia, mas acredito que ela serviu para desenvolver o lado humano de todos, mostrando a importância da empatia com o próximo”, conta Fabíola.

Reflexiva, a supervisora de enfermagem finalizou com um recado: “O uso da máscara reforçou a importância de falarmos menos e ouvirmos mais, de olhar no olho. Mas, acima de tudo, nos mostrou o quanto somos frágeis. Às vezes fazemos questão de pequenas coisas e, por tão pouco, deixamos de falar com o outro. E essa pandemia deixa uma reflexão: será que vale a pena não pedir desculpa? Discutir por pouco? Ou não ir atrás do outro? A vida é tão passageira”, finaliza.

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