A importância do cuidado da enfermagem na desparamentação em tempos de COVID-19

O manejo inadequado de EPIs torna-se um dos principais meios de infecção dos profissionais da saúde que atuam na linha de frente do combate ao novo Coronavírus

A cada minuto um profissional de saúde é infectado pelo novo coronavírus no Brasil. São 258.190 trabalhadores com a COVID-19, segundo dados do Ministério da Saúde em agosto. Os profissionais mais atingidos são técnicos de enfermagem, com 88.898 casos, seguidos de enfermeiros (37.689 confirmações) e médicos (27.767). Essa é a realidade difícil vivida pelos nossos heróis da saúde. 

Os EPIs (Equipamento de Proteção Individual) sempre fizeram parte da rotina de trabalho da enfermagem, mas, em tempos de COVID-19, o processo de desparamentação exige cuidado redobrado. Em contato direto com o vírus Sars-Cov-2, auxiliares, técnicos e enfermeiros ficam expostos – e a retirada de cada item é o momento mais crítico. Pesquisas indicam que é essa a etapa com maior índice de infecção dos profissionais.

A enfermeira Nair da Rocha Siqueira da Unidade de Internação do Hospital Mario Lioni (RJ), afirma que não foi fácil se adaptar aos novos protocolos de segurança. A carioca de 42 anos conta que o “peso” dos equipamentos durante as 24 horas de plantão era desesperador. “Nosso maior medo é a desparamentação, porque os equipamentos estão contaminados e qualquer descuido pode ser um problema sério”, afirma.  

Durante a atual jornada de trabalho, as equipes responsáveis pelo combate à COVID-19 utilizam luvas, máscara cirúrgica, máscara N/95 (por cima), óculos de proteção, face shield (protetor facial), pijama (uniforme padrão), touca e avental descartável. Entre um atendimento e outro, os profissionais fazem o descarte das luvas, touca e avental e higienizam as mãos com sabonete e álcool em gel a cada retirada – o que gera ansiedade, segundo Nair. 

“Às vezes sentimos vontade de ir ao banheiro respirar um pouco sem a máscara, mas ao lembrar de todo procedimento necessário para essa simples ‘respirada’, alguns relatam taquicardia por medo da contaminação”, conta a enfermeira. “A pressão de estar 100% atento à maneira de desparamentar existe e é necessária para nosso próprio bem. No início foi mais difícil, tínhamos marcas no rosto pelo peso da proteção fácil, feridas nas mãos e dedos de tanto álcool e equilibrar o emocional nesse período foi e ainda é o nosso maior desafio”, completa ela.

Segundo Nair, o medo de fraquejar durante o processo de desparamentação é inevitável e, com isso, crises nervosas acontecem entre os profissionais. Para a enfermeira carioca, lidar com a própria saúde emocional e a de seus colaboradores e pacientes tem sido um aprendizado. 

“O auge da minha estafa mental foi quando colhi os testes de colaboradores e vi colegas contaminados. Esse processo é doloroso, o profissional fica destruído, não tem jeito. Mas mesmo tendo sido assustador, foi e é muito gratificante viver tudo isso porque a empatia e caridade entre nós é reconfortante – e nos serviu de força para continuar a batalha diária. Um simples ‘bom dia’ renova nossa força para seguir”, finaliza Nair.

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