Como lidar com as horas de plantão da enfermagem

Boa alimentação e prática de atividade física melhoram a disposição durante a jornada de trabalho noturna

O fluxo de entrada de pacientes em hospitais e clínicas médicas no período noturno é menor se comparado com o período diurno, mas engana-se quem pensa que a rotina dos profissionais da saúde seja tranquila na madrugada. O plantão noturno exige de auxiliares, técnicos e enfermeiros estado de alerta, esforço cognitivo e disposição física para encarar a jornada de trabalho. O pronto atendimento pode ficar algumas horas sem novas entradas, mas casos de risco e graves podem surgir a qualquer momento – e é preciso estar preparado para todo o tipo de emergência. 

A enfermeira Denise Reis Dias Pupin atua na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Alvorada Moema em São Paulo (SP) e faz plantão noturno há 17 anos. Acostumada a trocar o dia pela noite, Denise conta que sempre optou pelo turno da noite – e dupla jornada de trabalho. ”Desde quando me formei enfermeira, trabalho 18 horas por dia, sendo seis horas à tarde mais os plantões noturnos – dia sim e dia não – somando 80 horas semanais. A dinâmica na UTI é bastante diferente dos demais setores e é gratificante atuar na linha de pacientes críticos e promover o melhor cuidado”, conta ela.

Apesar da intensa carga de trabalho, Denise consegue separar os problemas profissionais e não levá-los para o lar. Adepta da prática de atividade física e a boa alimentação, a enfermeira da UTI prepara suas marmitas e lanches para encarar a longa jornada no hospital. “Quando estamos com o corpo e a mente saudáveis, tudo flui melhor. Nós, profissionais da saúde e principalmente da enfermagem, precisamos estar bem para atender o próximo. É o primeiro requisito ”, afirma Denise. 

Ao dar entrada no plantão, a enfermeira prepara todo o material dos pacientes que estão sob o cuidado da equipe e protocolos do setor caso haja novas entradas. Denise prefere evitar a cafeína durante a noite e aposta na adaptação conjunta para um trabalho eficiente. “Existe uma poluição sonora no ambiente da UTI além do sofrimento de quem está ali e é preciso criar estratégias para se adequar ao local. Independente do plantão estar corrido ou tranquilo, a partir das 22 horas nós reduzimos a luminosidade para que os pacientes – em estado grave ou conscientes – possam descansar e associar ao período de sono. Não é porque a equipe está ativa que os pacientes precisam sofrer com os barulhos e luz forte”, afirma ela. 

Pandemia: escolhas e renúncias 

De frente com a crítica situação causada pela COVID-19, Denise sentiu na pele a potência do vírus. Ao sair de férias em meados de agosto para descansar, ela contraiu o vírus SarS-Cov-2 e precisou ser internada por nove dias. “Tive 50% de comprometimento pulmonar e, quando saí da internação, me questionei sobre minha árdua jornada de trabalho. Seu não resistisse, teria trabalhado a vida inteira e não cuidado do meu filho – e aquele momento foi um ‘divisor de águas’ para mim”, conta a enfermeira. 

Quando recebeu alta, Denise optou em seguir apenas no Hospital Alvorada, lugar em que trabalha há mais de 10 anos. “Desde o início da carreira eu optei pela dupla jornada de trabalho para oferecer uma boa vida ao meu filho. Mas, depois dos quase 20 dias doente, escolhi dar um descanso para o meu corpo e minha mente. Trabalhar com pacientes não é fácil, é preciso muita força interior e física para lidar com o dia a dia, principalmente quando falamos de pacientes críticos – como pede a UTI”, afirma. 

Com a carga de trabalho reduzida, Denise segue em seus plantões noturnos, mas se diz mais disposta para cuidar de seus pacientes e equipe de enfermagem. “Posso dizer que a pandemia é uma doença solitária e muito triste. Quando me vi adoecendo, precisei parar e rever minha vida. Precisamos estar mais presentes na vida de quem amamos, abraçar e dizer mais ‘eu te amo’. Se eu pudesse, escolheria a enfermagem mil vezes porque não é apenas um trabalho remunerado, é amor – e, principalmente, autocuidado”, finaliza.

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