Ensinamentos trazidos pelo combate ao Coronavírus une ainda mais a enfermagem

Profissional do Pronto Socorro COVID-19 do Hospital Next São Bernardo, Camila Tamassia fala sobre o que ela e os colegas enfrentam e absorvem

“Estou na área da enfermagem há 12 anos. Quando completei dez anos de carreira, me questionei se estava no caminho certo. Queria me conhecer, me ver atuar em outros campos, e então migrei para a área da beleza e estética. E fui feliz! Foram dois anos me redescobrindo; mas na primeira oportunidade de voltar para enfermagem, meu coração bateu acelerado. Eu decidi voltar – e foi a melhor coisa que fiz, pois naquele momento eu tive a certeza da minha (primeira) escolha. 

Pouco tempo depois, veio a pandemia. Surgiram muitas dúvidas na minha cabeça. Será que fiz a escolha certa? E então entendi que aquele era, sim, o meu momento e o meu lugar. Quando fui convidada a atuar na linha de frente da COVID-19, me senti útil como nunca havia me sentido. Naquele momento eu só conseguia agradecer pela oportunidade. Eu tive medo… Medo do desconhecido. Mas quando vesti os EPIs e enfrentei, dei ‘a cara à tapa’ e fui para a guerra com o coração à frente. 

Hoje as pessoas brincam dizendo ‘Nossa, mas você está feliz mesmo enfrentando a pandemia?’. E eu digo sim, porque trabalho com o que gosto. É cansativo? É difícil? É. Mas estamos ali de coração aberto. Mantenho minha rotina de cuidados em casa, que mudou totalmente desde o primeiro dia, mas felizmente não contraí o vírus. Vi amigos e colaboradores contaminados e foi triste. A preocupação é constante, mas no fundo, sabemos que tudo dará certo. 

Entre tantas dificuldades enfrentadas nessa pandemia, a mais dolorosa foi estar longe da minha família, principalmente da minha avó. Faz cinco meses que não nos abraçamos e só a vi duas vezes – e de dentro do carro. Aliás, entre tantos ensinamentos que a pandemia também me trouxe, o maior deles foi valorizar cada pequeno gesto. Até o menor detalhe que te faça feliz: um abraço, o conforto de ir e vir, o quarto quentinho onde eu durmo. .

Mas a enfermagem se uniu ainda mais nesse caos epidêmico. Começamos a nos entender melhor – primeiro como pessoas, pois somos todos iguais, independente de sermos auxiliares, técnicos ou enfermeiros. Todos estamos em posição de vulnerabilidade e, assim como muitos colegas se contaminaram, não significa que eu tenha feito algo diferente ou seja melhor por não contrair o vírus.

A Camila no primeiro dia de pandemia era cheia de dúvidas, inseguranças e medo. A Camila de hoje é mais forte. Mais preparada, mais confiante. Todos tínhamos muito medo de lidar com o dia a dia, de nos contaminar, de o paciente chegar em condições adversas. E hoje, quando há situação crítica ou lidamos com entubados, agimos todos com maior assertividade. Nos unimos! E, se não fosse nossa união desde o primeiro dia, a enfermagem no Brasil não teria enfrentado a pandemia como tem enfrentado.

Que tenhamos resiliência, pois ela é o maior ensinamento dessa pandemia.”

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