#RelatoDeUmEnfermeiro: as mudanças do Home Care em tempos de pandemia

A enfermeira regional Rosemeire Ferraz Nascimento fala sobre os desafios do Home Care em tempos de pandemia do Coronavírus

“Comecei a carreira profissional como comissária de bordo, onde atuei por quatro anos. Percebi, no início, os imprevistos que poderiam ocorrer em uma aeronave e, por curiosidade, busquei uma graduação em que eu pudesse prestar um melhor atendimento e auxiliar passageiros diante de qualquer emergência. Desde então, me encontrei na enfermagem – e há 13 anos atuo no cuidado efetivo do próximo. 

No início da minha carreira como enfermeira, passei por alguns setores hospitalares como UTI, Clínica Médica, Obstetrícia e Pronto-Socorro até chegar no Home Care; e, quando ingressei no atendimento domiciliar, me encantei pela área. Costumo dizer que quem atua em hospital não está apto a atuar em domicílio, mas quem trabalha no Home Care, com certeza está pronto para seguir no ambiente hospitalar. 

Em um hospital temos tudo à volta e, em qualquer emergência ou intercorrência, existe um apoio e suporte rápido de colegas e de uma equipe multidisciplinar sempre à disposição. O Home Care exige uma percepção maior do profissional sobre o que pode ser feito e toda e qualquer diferença, mudança ou intercorrência clínica dependerá do teu olhar. O enfermeiro ou a enfermeira passam a ser o olhar de toda uma equipe de médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e outros, sendo os responsáveis por relatar minuciosamente aos demais.

É comum quando algumas pessoas não entendem como a enfermagem vai manter um paciente com ventilação contínua (próprio de ambiente hospitalar) em uma casa – e nosso papel é passar confiança e assegurar o conhecimento técnico, prática e bom senso na visão do paciente. Por estarmos em um ambiente particular e familiar, diferente do hospital, existem hábitos e uma cultura própria no lar e que devem ser respeitados. Você passa a cuidar e zelar pelo todo: paciente, família, lar e demanda emocional. 

Com a pandemia, algumas famílias não aceitaram nossas visitas e algumas lacunas surgiram. Passamos a ser mais solicitados via telefone e a carga de trabalho aumentou. Apesar da alta demanda, conseguimos dar conta e nos adaptar ao ‘novo’ cenário. Deixamos de lado a parte administrativa e passamos a assessorar ainda mais auxiliares e técnicos – e para mim, foi completamente novo. Passei a fazer monitoramento telefônico, ‘visita virtual’ diária para acompanhar a jornada de auxiliares e técnicos, além de avaliar possíveis riscos ou intercorrências dos pacientes.

Hoje, é possível ver que as condutas aplicadas há dois, três meses funcionaram bem e houve uma fluidez para manter os pacientes e familiares tranquilos em casa. Por isso eu digo que a enfermagem não é uma opção, é amor. Cuidar do outro não é um desafio quando se tem amor. Nosso papel além da assistência prestada é demonstrar esse amor às famílias e passar confiança, força; mostrar a importância da doação constante, da entrega.Tentamos fazer com que eles enxerguem o lado bom e quando recebemos um feedback positivo ou de satisfação daquelas pessoas, é muito gratificante.

Enfrentar o vírus SarS-CoV-2 não foi fácil. Ao passar por tantas casas é comum perceber o quanto as famílias são ausentes no dia a dia e com a pandemia, o isolamento social e limitação, tivemos que olhar mais para dentro dos nossos lares. Olhar para dentro de nós, nossos valores, valorizar o tempo, o momento e a oportunidade de estar com um ente querido. Acredito que esse período difícil foi engrandecedor para todos como seres humanos e para nós, da enfermagem, ainda mais renovador.”

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