#RelatoDeUmEnfermeiro: o desafio da maternidade em meio à pandemia

A enfermeira Nathália Silva Pinto, de 36 anos, responsável pelo Pronto-Socorro Adulto do Hospital Ipiranga em Mogi das Cruzes (SP), conta como foram os primeiros dias no enfrentamento da COVID-19 pós-maternidade

“Consegui levar a gestação até o último momento e parei de trabalhar uma semana antes de ganhar o bebê, no final de janeiro deste ano. No início da pandemia ainda estava de licença maternidade, mas acompanhei de longe as dificuldades e desafios dos companheiros de trabalho no enfrentamento diário da COVID-19.

Senti muito medo de retornar ao hospital. Acho que, quando nos tornamos mães, ficamos mais cautelosas, emotivas e com os sentimentos aflorados. Tive medo de contaminar meu bebê, meu marido e minha família em si. Quem está ‘dentro’, vivendo o enfrentamento do vírus, tem uma visão maior da realidade – e foi preciso coragem para seguir. Foi difícil.

Quando retornei (quatro meses depois), fiquei assustada com os protocolos implantados e mudança estrutural do hospital. Mesmo em contato e acompanhando de longe os colegas, eram muitas informações a serem absorvidas. Aos poucos, com os treinamentos, instruções e leituras, fui absorvendo e me adaptando ao novo – de novo. E apesar de iniciar na linha do combate do Coronavírus em uma época de números ‘controlados’, até hoje lido com o medo da contaminação.

Na enfermagem trabalhamos muito com processos – o que pra nós acaba se tornando uma rotina. O hábito de higienizar as mãos e usar álcool em gel sempre existiu, então a adaptação de outros EPIs – já utilizados em procedimentos específicos – não foi um problema. Claro que ficamos apreensivos nessa situação ainda nova, ver a quantidade de pessoas contaminadas, algumas saindo bem do hospital, outras com uma trajetória infeliz… mas procuro me motivar e acreditar em dias melhores.

Tem dias que são mais difíceis, mas tento equilibrar dentro de mim os sentimentos para que não fujam do meu controle ou me atrapalhem no dia a dia, principalmente na vida pessoal. E, apesar de todo medo e receio que vivi no começo, não pensei em desistir em nenhum momento. Amo o que faço e é satisfatório viver a enfermagem. Acredito que a maior lição dessa pandemia foi a prática da empatia; sentir a dor do outro e respeitar.

A maternidade transforma ainda mais a mulher, é algo especial. Eu não tinha ideia de como seria vivê-la, ainda mais em uma pandemia, mas me transformou muito. É até difícil de expressar em palavras. Hoje sou uma mulher mais forte, mais amorosa, mais cuidadosa, mais sensível. Ser mãe me permitiu ser melhor não só no pessoal como no profissional também. Me tornei uma guerreira. E sigo na luta, firme e forte, por mim e pelo próximo.”  

Mais conteúdos