Enfermeira relata como foram seus primeiros dias no combate à pandemia

A enfermeira Valeska Kelly Trentini, de 36 anos, contou como foram os primeiros dias de trabalho no início da pandemia do novo coronavírus, em março deste ano.

A enfermeira Valeska Kelly Trentini, de 36 anos, contou como foram os primeiros dias de trabalho no início da pandemia do novo coronavírus, em março deste ano (2020). 

“Trabalho no Hospital Butantã há doze anos – o único em que atuei profissionalmente – e, curiosamente, onde eu nasci. Mais recentemente, no início deste ano, trabalhava no Centro Cirúrgico e, por conta da pandemia, as cirurgias foram canceladas. Então fui remanejada junto com alguns colaboradores para a UTI tratar os pacientes com a COVID-19.

O início da pandemia foi muito difícil pra mim no sentido de lidar com o desconhecido. O medo, a incerteza do contágio, pessoas morrendo e você se vendo ali, na linha de frente, tratando pacientes infectados; era inevitável o sentimento de insegurança. Os profissionais que foram recrutados para estar ali eram novos no setor (de UTI) e, por serem pacientes com o vírus, a insegurança de todos era maior ainda. 

Precisei reunir a equipe muitas vezes para dar incentivo e força. Por ironia da vida, a nossa primeira paciente internada foi uma colega e amiga de profissão. Ela chegou com cateter e dois dias depois precisou ser entubada. Foi um choque! Sentimos muito e foi preciso coragem e apoio conjunto para seguir. E seguimos. Fortes. 

A cada paciente recuperado, uma conquista para nós. Ao receberem alta, aplaudimos um por um com louvor. Fazíamos uma festa! Eles se mostravam muito gratos, mas, para nós, contribuir para aquela vitória era uma felicidade sem fim. Aos que não puderam vencer a batalha, nossos corações permaneciam profundamente tristes. Nem todos puderam vencer. 

Com o passar dos dias, alguns hábitos foram mudados. Moro próximo à minha mãe e sempre que podia, estava na casa dela antes do isolamento. Mesmo com a tecnologia das chamadas de vídeo, senti bastante o afastamento físico – mais ainda do meu filho. Ainda sinto os efeitos da pandemia, mas também me sinto grata e orgulhosa por tudo que fizemos – e estamos fazendo – na UTI. O aprendizado que tive todo esse tempo, a vivência, a visão de vida e, principalmente, da minha profissão, não têm preço.

A vida é mesmo um fio e não sabemos o dia de amanhã. E, apesar de tudo, me sinto confiante. Prefiro me sentir assim, esperançosa, e acreditar que em breve teremos uma solução real para todo esse caos.”  

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