#RelatoDeUmEnfermeiro – Precisamos vencer o tabu contra o câncer

A enfermeira Lucineide Pereira da Penha atua na Unidade de Internação do Hospital Next Butantã e contou sua história de superação e relação com o câncer. 

 

“Em 2006, ingressei no setor de Oncologia Infantil do Hospital Next Butantã em minha primeira experiência profissional como enfermeira. Com seis meses de casa, fiz exames de rotina – como de costume – e descobri um tumor no ovário direito já com alguns focos no esquerdo. Foi um choque. Até então não tinha qualquer sintoma, dor ou anormalidade no fluxo menstrual e fiquei muito preocupada – com a doença em si e com o fato de ser nova na instituição e profissão. 

Foram 20 dias entre o processo de diagnóstico e cirurgia. Por se tratar de um tumor limítrofe (com células malignas e benignas), a equipe médica optou por retirar os dois ovários e o tratamento quimioterápico foi descartado. Foi um período de muita ansiedade e insegurança. Não precisei me afastar do trabalho, pois me sentia bem fisicamente e não deixei a situação atrapalhar minha jornada. Foi uma forma de superar a doença, além de todo apoio recebido pela supervisão e equipe médica do Hospital Next Butantã na época.

Passei dez anos em acompanhamento oncológico, realizando exames de imagem a cada seis ou oito meses e fui liberada. Dois anos depois da alta, em 2018, a história se repetia. Com dores na coluna, procurei um ortopedista; associei a dor à prática de atividade física, mas o câncer surgia em mim novamente. Era uma recidiva do tumor, com as mesmas características do ovário, atrás da região da apêndice. Passei por duas outras cirurgias e a histerectomia total do útero foi necessária para evitar um terceiro diagnóstico futuro.

Mesmo com o histórico da doença e a vivência na enfermagem, o segundo diagnóstico foi ainda mais difícil. A profissão facilitou a valorização da minha dor, de me tocar, de observar meu corpo, mas foi difícil controlar o emocional. O diagnóstico precoce foi e é fundamental para uma perspectiva positiva de sobrevida e qualidade de vida para quem enfrenta o câncer, e acredito que o autocuidado foi fundamental para que eu driblasse o câncer. 

Existe um tabu onde as pessoas associam a doença à morte. ‘Você tem câncer e vai morrer’… Mas hoje você consegue ter uma qualidade de vida com acompanhamento médico e suporte psicológico e até pacientes em cuidados paliativos conseguem ter qualidade de vida. A morte não está determinada quando há diagnóstico de câncer. Por isso, o autocuidado é fundamental e deve ser priorizado. Se olhar, se perceber, valorizar a dor e buscar suporte profissional em prol da saúde é essencial no combate ao câncer.”

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