#RelatosDeUmEnfermeiro: eu luto contra o câncer, mas não é ele quem vai me derrubar

A auxiliar de enfermagem Ana Paula Sartorelli Rebouças integra a equipe de enfermagem do Centro Cirúrgico do Hospital Next Butantã e conta sobre a luta contra o câncer de mama

“Ao fazer o autoexame de mama no início de 2020, notei um nódulo no seio esquerdo e, ao realizar o exame de imagem, o diagnóstico confirmava o câncer; um subtipo agressivo denominado como triplo-negativo (com maior chance de retorno da doença depois de um prévio controle, levando à metástase e a uma sobrevida menor do que os outros tipos de câncer). Poucos dias depois, iniciei o tratamento de quimioterapia, mas com o aumento significativo do nódulo, precisei fazer a retirada total das mamas e esvaziamento da axila esquerda. 

Durante a cirurgia da mama, o nódulo sangrou muito e o procedimento com duração prevista de uma hora levou seis, possibilitando apenas a retirada do quadrante. A biópsia do nódulo confirmava a gravidade da doença e precisei seguir com o tratamento quimioterápico (dessa vez oral) até a segunda cirurgia para a retirada completa das mamas. Ao todo são oito comprimidos diários – quatro pela manhã e quatro pela tarde – por seis meses em ciclos de quinze dias, para, então, iniciar o processo de radioterapia. 

Quando me olhei no espelho e vi o cateter Port-A-Cath (dispositivo utilizado para administração de medicamentos e coleta de sangue em pacientes oncológicos) em meu pescoço, a vontade de arrancar e acabar com aquilo em um momento de desespero foi grande. Parei, fechei os olhos, busquei o ar e respirei fundo; deixei a água escorrer pelo meu corpo em busca de autocontrole até a angústia e ansiedade passarem. Naquele momento eu entendi o quanto podemos controlar nossa mente e que eu poderia ser mais forte do que imaginava. 

Não é um diagnóstico fácil de receber, confesso. Me senti atordoada, sem saber o que fazer, mas, desde que me tornei mãe, descobri essa força inimaginável habitada em mim. No início do tratamento, voltava para casa desolada – mesmo sem os temidos efeitos colaterais. Só quem passa pela quimioterapia entende o que é o processo; as dores por todo o corpo e o sofrimento. Passado um tempo, coloquei na cabeça que o câncer não me derrubaria e, desde então, sigo firme, vivendo um dia de cada vez e sem ansiar pelo amanhã.

A enfermagem me deu força para enfrentar o processo. Nós, como profissionais da área – bem ou mal – sabemos os riscos, a possibilidade da metástase e todas as possíveis etapas da doença. A profissão me ajudou e ajuda a enxergar a força que temos como humanos e me incentiva a mostrar aos demais que o câncer ou qualquer outra doença podem ser enfrentadas de uma maneira diferente, sem associar à morte. 

Carrego o apoio da minha família e amigos como inspiração. Eu ainda luto contra o câncer e sei que tudo pode acontecer, mas optei por enxergá-lo como uma gripe e que logo passará. E às mulheres que enfrentam o câncer hoje, eu digo: vivam a vida como se não houvesse o amanhã! Não se preocupem demais. Hoje estamos bem e amanhã talvez não estejamos. O câncer mata, sim, mas o que você puder fazer hoje para ajudar o próximo, orientar, escutar, abraçar ou dizer o quanto você o ama, faça isso. Respira mais um pouco e ‘cava’ no fundo do teu peito porque existe uma força infinita dentro de nós”.

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