#RelatosDeUmEnfermeiro: “sem a Enfermagem não tem saúde”

Valeria Lee é enfermeira assistencial da UTI de COVID-19 no Samaritano Higienópolis. Neste relato, ela - que atua desde o começo da pandemia na linha de frente - compartilha sua visão sobre o papel da Enfermagem nos hospitais e a luta contra o Coronavírus.     

“A pandemia não me fez enxergar minha profissão de forma diferente, pois o que faço agora não difere do que eu fazia antes – sempre existiram pacientes graves/gravíssimos. O que aconteceu foi que desde o início da pandemia nosso trabalho foi intensificado em um nível jamais imaginado por nós, porque é um cenário de guerra que já vem se estendendo há mais de um ano. Depois de todas as experiências, eu só valorizo mais a nossa profissão e vejo o quanto ela é indispensável. Sem a Enfermagem não tem saúde.

O enfermeiro está presente desde a porta de entrada até a saída do paciente. Ele é que “dá a liga” na equipe multidisciplinar: faz a ponte entre todos os profissionais e gerencia a unidade, estando sempre em contato com as demais áreas de apoio – como a equipe médica assistente – e trabalhando de frente para o paciente, escutando suas demandas.

A Enfermagem faz o cuidado direto, afere sinais vitais, administra os medicamentos, auxilia na alimentação e na higiene… Quanto mais dependente for um indivíduo, mais ela vai atuar – e, muitas vezes, são as nossas mãos e os nossos ouvidos que estão disponíveis para tratar e escutar as queixas dos pacientes e de seus familiares.

Porém, nem tudo são flores: no início da pandemia recebemos aplausos das pessoas e até tivemos destaque, mas isso durou pouco e passamos a ser mal compreendidos por parte da população. Alguns chegaram a ser agredidos no transporte público, vizinhos – e até mesmo familiares – nos viam como potenciais vetores do vírus. Felizmente, aqui dentro de nosso hospital recebemos apoio de nossos pares e principalmente da chefia, o que ajudou muito a chegarmos até aqui.

Ainda assim, estar inserida nesse ambiente de luta não tem sido fácil. Moro com minha irmã, que tem uma condição de fragilidade, e por um período de 6 meses fui morar fora por conta do potencial risco de contágio para ela. Não tem como essa situação não te impactar como filha, irmã, tia, amiga… Ficamos fisicamente longe de pessoas com as quais nos importamos.

Inclusive, passei também pela experiência de cuidar de um colega enfermeiro, de quem eu recebia o plantão e que estava comigo na linha de frente. Ele foi contaminado, adoeceu e precisou ser internado. A gente sempre se comunicava e ele dizia que estava muito cansado, a voz dele ao telefone não o deixava mentir. Quando ele piorou, eu segurei o choro: não podia chorar na frente dele, só prometi que ia cuidar muito bem do meu colega.

Ele acabou sendo intubado e foi um período de muita angústia, por se tratar de um dos nossos – mas quando a gente chegava perto dele e o tocava, a saturação subia, e isso também nos animava. Para ele não se sentir só, eu deixava meu celular tocando música ao seu lado. Alguém me disse que ele gostava de pagode: ficou tocando horas, por dias. E assim foi, até que ele finalmente se recuperou e voltou para a equipe.

Foi um momento de muita comemoração e foi lindo, mas o engraçado foi quando ele me perguntou de qual ‘bar’ vinha aquele pagode, pois ele tinha vontade de levantar do leito do hospital e ir lá brigar com o dono. Ele disse que achava uma falta de respeito ter festa, música alta enquanto tinha tanta gente doente. Eu ri demais quando descobri que na verdade ele detesta pagode e gosta mesmo é de música clássica. Mesmo sedado, ele lembrava da música que coloquei para ele ouvir durante a internação – e agora continua aqui conosco, firme e forte!”

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