#RelatosDeUmEnfermeiro: a enfermagem é gigantesca

“A enfermagem sempre foi importante, mas, hoje, é muito mais: ela é gigantesca. Quando um paciente é internado, o único contato que está ao lado dele 24h por dia somos nós. E isso gerou uma rede de amor, acolhimento e gratidão que nos toca profundamente.

Às vezes, pessoas traqueostomizadas, que quase não falam, encontram formas de balbuciar e agradecer o nosso cuidado – e como isso não mexeria com a gente? Até porque não só os pacientes: os familiares, apesar do menor contato, são extremamente gratos. E, para nós, dar a notícia da alta é uma alegria tremenda!

Temos relatos de parentes que voltaram ao hospital para compartilhar com a gente como a pessoa recuperada está feliz e alegre por estar junto de quem mais ama. Isso é muito chocante e nos faz muito bem – é esse resultado que a gente espera alcançar ao vir para o trabalho.

A Florence Nightingale dizia que a enfermagem é uma arte com a qual a gente consegue colorir um pouco a vida de alguém – sem usar tela ou lápis, mas com zelo, dedicação e amor. E isso ficou muito mais claro durante a pandemia.

Toda profissão na área da saúde é bonita, mas a nossa é uma coisa que me deixa sem palavras. Estamos ali 24h por dia e, no meu caso, dentro de uma UTI. E essa dedicação e amor que transmitimos ao paciente, que às vezes ficam 20 dias ou mais sem ver a família, é muito importante. E garanto: eles retornam esses sentimentos para a gente.

Essa troca de carinho e ajuda reforçou ainda mais o que sempre acreditei: enfermagem é amor. Amor na relação com o paciente, com os familiares e entre a nossa equipe.

Eu, enquanto Simone Bonacin e mãe, aprendi a querer ter minha família ainda mais perto de mim. A gente tem medo, o momento é delicado, mas a importância de quem a gente ama e de pessoas queridas ficou ainda mais clara com tudo que vivi nos últimos meses.”

#RelatosDeUmEnfermeiro: “sem a Enfermagem não tem saúde”

“A pandemia não me fez enxergar minha profissão de forma diferente, pois o que faço agora não difere do que eu fazia antes – sempre existiram pacientes graves/gravíssimos. O que aconteceu foi que desde o início da pandemia nosso trabalho foi intensificado em um nível jamais imaginado por nós, porque é um cenário de guerra que já vem se estendendo há mais de um ano. Depois de todas as experiências, eu só valorizo mais a nossa profissão e vejo o quanto ela é indispensável. Sem a Enfermagem não tem saúde.

O enfermeiro está presente desde a porta de entrada até a saída do paciente. Ele é que “dá a liga” na equipe multidisciplinar: faz a ponte entre todos os profissionais e gerencia a unidade, estando sempre em contato com as demais áreas de apoio – como a equipe médica assistente – e trabalhando de frente para o paciente, escutando suas demandas.

A Enfermagem faz o cuidado direto, afere sinais vitais, administra os medicamentos, auxilia na alimentação e na higiene… Quanto mais dependente for um indivíduo, mais ela vai atuar – e, muitas vezes, são as nossas mãos e os nossos ouvidos que estão disponíveis para tratar e escutar as queixas dos pacientes e de seus familiares.

Porém, nem tudo são flores: no início da pandemia recebemos aplausos das pessoas e até tivemos destaque, mas isso durou pouco e passamos a ser mal compreendidos por parte da população. Alguns chegaram a ser agredidos no transporte público, vizinhos – e até mesmo familiares – nos viam como potenciais vetores do vírus. Felizmente, aqui dentro de nosso hospital recebemos apoio de nossos pares e principalmente da chefia, o que ajudou muito a chegarmos até aqui.

Ainda assim, estar inserida nesse ambiente de luta não tem sido fácil. Moro com minha irmã, que tem uma condição de fragilidade, e por um período de 6 meses fui morar fora por conta do potencial risco de contágio para ela. Não tem como essa situação não te impactar como filha, irmã, tia, amiga… Ficamos fisicamente longe de pessoas com as quais nos importamos.

Inclusive, passei também pela experiência de cuidar de um colega enfermeiro, de quem eu recebia o plantão e que estava comigo na linha de frente. Ele foi contaminado, adoeceu e precisou ser internado. A gente sempre se comunicava e ele dizia que estava muito cansado, a voz dele ao telefone não o deixava mentir. Quando ele piorou, eu segurei o choro: não podia chorar na frente dele, só prometi que ia cuidar muito bem do meu colega.

Ele acabou sendo intubado e foi um período de muita angústia, por se tratar de um dos nossos – mas quando a gente chegava perto dele e o tocava, a saturação subia, e isso também nos animava. Para ele não se sentir só, eu deixava meu celular tocando música ao seu lado. Alguém me disse que ele gostava de pagode: ficou tocando horas, por dias. E assim foi, até que ele finalmente se recuperou e voltou para a equipe.

Foi um momento de muita comemoração e foi lindo, mas o engraçado foi quando ele me perguntou de qual ‘bar’ vinha aquele pagode, pois ele tinha vontade de levantar do leito do hospital e ir lá brigar com o dono. Ele disse que achava uma falta de respeito ter festa, música alta enquanto tinha tanta gente doente. Eu ri demais quando descobri que na verdade ele detesta pagode e gosta mesmo é de música clássica. Mesmo sedado, ele lembrava da música que coloquei para ele ouvir durante a internação – e agora continua aqui conosco, firme e forte!”