Entenda o papel do técnico de enfermagem no Centro Cirúrgico

Tida como a maior força de trabalho da área da saúde, a enfermagem possui um amplo campo de atuação e é protagonista quando o assunto é cuidado. Entre os diversos setores assistenciais, o Centro Cirúrgico é visto como um dos mais importantes e que demanda maior cuidado e atenção dos colaboradores devido ao nível dos procedimentos realizados – o que exige da equipe foco e disciplina. 

Entre os profissionais que atuam no Centro Cirúrgico, como médicos cirurgiões, anestesistas e instrumentadores (quando necessário), o técnico de enfermagem é o grande responsável por organizar, preparar e garantir um ambiente limpo, seguro e controlado para que nenhum tipo de imprevisto aconteça – colocando o paciente no centro do cuidado.

Durante um procedimento cirúrgico, os(as) técnicas(os) de enfermagem verificam o funcionamento, conservação e manutenção dos equipamentos que compõem o setor para que a cirurgia – seja de pequeno, médio ou grande porte – aconteça da melhor maneira possível. Para Washington Conceição Jorge, técnico de enfermagem do Centro Cirúrgico do Hospital Samaritano Paulista (SP), o papel do técnico é fundamental durante todo o processo de cirurgia.

 “Nosso trabalho é preparar o ambiente com atenção aos mínimos detalhes, como checar se os equipamentos estão ligados e carregados, verificar a higiene dos materiais e instrumentos cirúrgicos que chegam da Central de Material Esterilizado, separar todos os itens que serão utilizados, medicamentos da farmácia – além de assegurar o paciente, observando o conforto e propensão a desenvolver um hematoma ou ferida”, conta. 

A rotina do técnico de enfermagem no Centro Cirúrgico 

A rotina de Washington começa ao checar as cirurgias previstas durante o plantão e, com a escala em mãos, trata de organizar sua sala com cuidado e atenção. “Analisamos o tipo de cirurgia que será realizada para providenciar os itens necessários, prevendo cenários e possíveis intercorrências. É um setor que exige um olhar crítico, analítico e cuidadoso para que nada falte durante o procedimento”, explica ele. 

Além de preparar o ambiente, Washington atua lado a lado com o médico durante todas as etapas da cirurgia. “Procuro deixar o paciente o mais confortável possível até o momento da indução anestésica porque a cirurgia não é entendida como algo normal; os pacientes sentem medo, é natural. No Samaritano Paulista atuamos em cirurgias de grande porte, como a cardíaca, que tem duração de 5 a 7 horas, por exemplo – e nosso papel é tranquilizar o indivíduo para que tudo ocorra da melhor maneira”, afirma o técnico. 

Segundo Washington, a cautela e a atenção são as grandes aliadas para um trabalho de excelência dentro do centro cirúrgico. “Todo e qualquer procedimento cirúrgico nos exige um entendimento e conhecimento técnico muito específico, pois cada cirurgia é única; são materiais diferentes, equipamentos diferentes e manter a calma durante o processo é fundamental. Intercorrências podem acontecer, estamos sujeitos a isso, mas com senso crítico e um olhar minucioso para cada etapa, conseguimos reduzir os eventuais riscos”, diz ele. 

Desafios do setor cirúrgico

Entre os desafios da enfermagem está a capacitação contínua. Por se tratar de uma área em que a tecnologia é muito utilizada, o estudo e treinamentos constantes são fundamentais para os técnicos, afirma Washington. “Gosto de ler artigos e me atualizar sobre temas relacionados à área, como indução anestésica, laboratórios especializados e entender o funcionamento da CME. Acredito que quanto mais conhecimento adquirimos, melhor será nossa assistência ao paciente”, finaliza ele. 

A organização do técnico de enfermagem é um dos atributos fundamentais para atuar no centro cirúrgico e manter-se calmo no processo é o grande desafio, aponta Washington. “Passamos por muitas etapas durante o preparo de uma cirurgia e fazer um check-list é importante para reduzir eventuais problemas durante o procedimento. Isso pode acontecer, mas é importante manter a tranquilidade para conseguir resolver tudo de forma consciente e ágil”, finaliza.

Dia Nacional de enfrentamento ao Câncer Infantil: entenda a importância da enfermagem na oncologia pediátrica

O dia 23 de novembro é marcado pelo Dia Nacional de enfrentamento ao Câncer Infantil, data que alerta para o número de casos da doença em crianças de um a 19 anos. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), cerca de 12 mil casos de câncer infantil são diagnosticados no Brasil a cada ano – a maioria envolvendo crianças de quatro a cinco anos. Entre os tipos mais comuns, a leucemia, linfomas, tumores do sistema nervoso central, tumores sólidos como o neuroblastoma, sarcomas e o tumor de Wilms acometem os mais novos – e o desafio dos profissionais da saúde está em prevenir dessas doenças. 

Protagonistas na busca ativa de prevenção contra o câncer, enfermeiros e enfermeiras especializadas em oncologia precisam de atenção e cuidado diferenciado quando se trata de câncer infantil. Diferente do adulto, as crianças não possuem fatores sociais ou ambientais suficientes – como o exame de rotina – e, por isso, requerem um olhar amplo e minucioso da enfermagem desde o processo de investigação ao tratamento da doença.

“O adulto geralmente tem fatores de risco de qualidade de vida, histórico familiar ou dele mesmo que podem indicar a propensão ao câncer e, então, fazer uma busca ativa para o diagnóstico precoce. No caso das crianças, elas são diagnosticadas quando já existe um sintoma e a enfermagem especializada é fundamental para olhar o paciente de forma ampla e completa para antecipar qualquer tipo de risco”, conta Juliana Francielle Marques, enfermeira especialista em oncologia pediátrica do Hospital Samaritano Paulista (SP).

Para Juliana, o câncer não é uma doença comum em crianças – e o olhar atencioso dos pais é importante para que a doença seja tratada preventivamente. “Apesar do estigma que a doença traz, cerca de 80% das crianças acometidas pelo câncer conseguem vencer o tumor – um prognóstico mais positivo quando comparado ao de um adulto”, afirma a enfermeira. 

A atenção dos pais e o cuidado individualizado da enfermagem 

Os primeiros sintomas do câncer infantil são confundidos com os de doenças comuns na infância, como viroses, gripes e resfriados, explica a especialista. “Geralmente, os pais percebem uma alteração na criança, como a febre, apatia ou dificuldade para comer e a levam ao pronto-socorro, onde é submetida ao tratamento por antibióticos e, em pouco tempo, retornam à instituição com o mesmo problema. E, então, é solicitado um hemograma – às vezes na terceira ida – e se descobre uma leucemia em estágio moderado ou até avançado”, alerta Juliana. 

Sinais que permanecem como hematomas sem explicação, nódulos, caroços, cansaço extremo, palidez, perda de peso excessiva, mudança na visão entre outros devem ser levados em conta pelos pais e equipe de saúde primária. “O diagnóstico, nesses casos, é inespecífico – e os pais são fundamentais para olhar de perto essa criança. Nenhuma criança involui e qualquer alteração é preciso estar alerta: o cuidado amplo e individualizado é nosso maior desafio como enfermagem”, diz a enfermeira especialista. 

Atributos e desafios da enfermagem na oncologia pediátrica

A empatia com os pais é fundamental durante o processo, conta Juliana. “O câncer ainda é uma palavra forte e que assusta. Uma criança que chega ao hospital e, de repente, é internada com suspeita de câncer, gera um choque aos responsáveis e no próprio menor, Apesar de responderem mais ao tratamento, são mais sensíveis aos efeitos colaterais e nosso desafio está em medir as doses para evitar possíveis desconfortos e traumas nelas e nos pais”, afirma ela. 

“Se um adulto vomitar três vezes, sentirá um desconforto, mas a criança pode entrar em estado de choque e é nosso papel estabelecer e oferecer o melhor plano de cuidado. O tratamento infantil é mais longo e pode durar cerca de dois anos e meio (dependendo do tipo do tumor) e as famílias exigem muita informação de nós. Devemos instruir e orientar os responsáveis para que o olhar cuidadoso e a atenção da enfermagem sejam levados ao lar”, finaliza Juliana.

Classificação de risco: entenda a importância do protocolo para o atendimento do paciente

O pronto-socorro é a porta de entrada para pacientes em situações de urgência e emergência, graves ou potencialmente graves e que necessitam de atendimento especializado. Dentre os setores de um hospital, o PS é considerado o de maior dinâmica devido ao fluxo diário de pessoas – e engana-se quem associa uma recepção vazia com tranquilidade e calmaria; em minutos a quietude pode mudar e a enfermagem é a grande protagonista da área ao proporcionar agilidade ao processo.

Responsáveis por avaliar todos os pacientes que dão entrada ao PS, enfermeiros e enfermeiras precisam de destreza ao conduzir e orientar cada pessoa de acordo com sua necessidade, prezando por um atendimento ágil e humanizado igualitariamente. Desde a criação do protocolo de Classificação de Risco, através de um conhecimento técnico-científico peculiar, a enfermagem tem o papel de gerenciar e organizar a ordem de atendimento através de um sistema de cores – que estabelece a gravidade e tempo de espera em que o paciente pode ser submetido com segurança até a consulta médica.

Para Flávia Conceição dos Santos, enfermeira rotina do Pronto-Socorro do Hospital Pan-Americano no Rio de Janeiro, a Classificação de Risco é essencial para promover uma assistência segura e eficiente a todos os pacientes que recorrem às instituições de saúde.

“Antigamente, o critério de atendimento era baseado na ordem de chegada e com essa sistematização, podemos priorizar os casos de maior urgência sem deixar de lado os que podem aguardar um determinado tempo com segurança para ser atendido pela equipe médica”, conta ela.

A dinâmica do protocolo de Classificação de Risco

A aferição da pressão, sinais vitais e sintoma de dor são um dos indicadores que fazem parte do protocolo de Classificação de Risco durante a condução do paciente na triagem do pronto-socorro. A partir da leitura do(a) enfermeira(o) diante do paciente, ele é encaminhado ao setor indicado e recebe uma etiqueta no tórax – geralmente caracterizada pelas cores azul, amarelo, verde, laranja e vermelho – que identifica: 

  • Azul: atendimento em até 120 minutos
  • Verde: atendimento em até 90 minutos
  • Amarelo: atendimento em até 30 minutos 
  • Laranja: atendimento em até dez minutos
  • Vermelho: atendimento imediato

“Além da porta de entrada comum do pronto-socorro, temos a porta traseira da emergência por onde chegam pacientes em estados graves – como parada cardíaca – que precisam ser submetidos a um atendimento imediato ou em até dez minutos, caracterizado pela cor laranja ou vermelha. Um paciente que chega ao PS com dor torácica, por exemplo, é encaminhado diretamente ao leito para a equipe de retaguarda do setor”, explica Flávia.

Atributos necessários para atuar no pronto-socorro

A visão do enfermeiro e enfermeira que atuam no PS deve ser ampla e, além da agilidade, o pensamento crítico ao conduzir o paciente é necessário, diz a enfermeira.

“Precisamos fazer uma leitura rápida ao averiguar o paciente durante a triagem e não é uma tarefa fácil. A observação completa é fundamental, pois muitos pacientes não indicam – seja na fala ou gesto –  todos os sintomas e nesse momento, a cognição e empatia precisam caminhar em conjunto com o conhecimento técnico para conduzirmos da melhor maneira aquele indivíduo”, afirma.

Além da agilidade e senso crítico, o pronto-socorro exige da enfermagem calma e organização.

“Por pior que seja o estado do paciente, é fundamental manter a calma para seguir a conduta da melhor forma, sem deixar de lado o conhecimento técnico e o protocolo de CR. O entendimento e clareza do que está fazendo durante um momento delicado somado ao trabalho organizado e em equipe, garantem um trabalho de excelência”, observa Flávia.

Desafio do setor 

Como em todos os setores em que a enfermagem atua, o PS exige capacitação contínua das equipes assistenciais.

“Minimizar erros é o nosso grande desafio. Temos um time muito capacitado, unido e bons ouvintes – que reconhecem os erros e procuram melhorar. A enfermagem emergencista está no primeiro contato com o paciente e tempo é coração, é cérebro. Temos que adquirir conhecimento, saber novas técnicas e melhorar nossa performance diariamente, pois lidamos com vidas em estado extremo de vulnerabilidade”, ressalta a enfermeira.

“Fazemos um trabalho de observar o rendimento e performance das equipes para entendermos, juntos, o que pode ser melhorado, prezando a melhor assistência, segurança e agilidade ao paciente. Costumo brincar dizendo que vestimos a capa do plantão e nela, depositamos o espírito de que tudo dará certo, independente do que acontecer. Infelizmente, óbitos acontecem e precisamos chegar todos os dias com essa ‘capa de confiança e sucesso’ para mitigar erros”, finaliza Flávia.

Dia Mundial do Combate ao Câncer de Próstata: a importância do autocuidado na saúde masculina

O mês de novembro é marcado pelas ações do Novembro Azul, movimento mundial em prol da prevenção contra o câncer de próstata – considerada a segunda doença que mais atinge homens depois do câncer de pele, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A primeira campanha surgiu há quase duas décadas mas, apesar disso, ainda não é suficiente para driblar os números. Segundo o INCA, mais de 65 mil casos de câncer de próstata foram registrados em 2020 e estima-se um aumento significativo do diagnóstico nos próximos anos.  

Tidos como “educadores da saúde”, enfermeiros e enfermeiras exercem um papel fundamental no cuidado com pacientes oncológicos – desde a orientação sobre a prevenção até o acolhimento e plano de cuidado durante a trajetória da doença. Para a enfermeira oncológica Márcia Helena Dornellas Hock, do Hospital Paulistano (SP), a pauta discutida nas campanhas de Novembro Azul é essencial para propagar a importância da busca ativa pelo autocuidado na saúde masculina.

“A maioria dos pacientes com câncer de próstata do Hospital Paulistano foram diagnosticados ainda na fase inicial da doença, o que possibilita um tratamento mais ‘fácil’ além de maior chance de cura. Mas, apesar do esclarecimento de alguns, ainda vemos muitos homens chegarem a um estágio avançado da doença por medo, preconceito ou vergonha de buscar ajuda. O preconceito em relação ao cuidado com a saúde masculina existe e precisa ser quebrado – e, nós, profissionais da saúde, podemos e devemos ajudar na conscientização de pacientes para quebrar possíveis barreiras”, conta Márcia.

Um tabu que leva ao risco 

Assim como outras doenças “sigilosas”, o câncer de próstata é assintomático no estágio inicial – o que aumenta o desinteresse pelos homens em se cuidar, observa a enfermeira especialista em oncologia. Além do exame de sangue (PSA), o exame de toque retal é primordial para o diagnóstico precoce de câncer de próstata – entre outras doenças – e o entendimento sobre os possíveis riscos deve ser levado em conta na hora de instruir o paciente, conta Márcia.

“Nosso papel na oncologia é, além promover o cuidado e a qualidade de vida do paciente, conscientizar os homens a serem atuantes no cuidado integral com a própria saúde. Vemos mulheres fazendo os exames preventivos anualmente e é sabido que, quanto maior a idade do homem, maior o risco de câncer de próstata. A prevenção no âmbito masculino ainda é um tabu e os expõem a riscos”, afirma a enfermeira especialista. 

O autocuidado começa na enfermagem

Vistos como “agentes do cuidado”, enfermeiros e enfermeiras também precisam olhar para si em primeiro lugar – e campanhas como o Novembro Azul ajudam a reforçar a cultura do autoexame na enfermagem. “Essas datas estimulam não só pacientes e acompanhantes como os próprios colaboradores a zelar pelo autocuidado. Vejo colegas – homens e mulheres – procurarem ajuda a partir de eventos pontuais e, para nós da oncologia, existe uma preocupação maior com a própria saúde. A prevenção passa a fazer parte do nosso hábito como pessoas”, conta Márcia. 

A enfermeira observa, ainda, a importância de olhar para outras doenças – além do câncer de próstata – que atingem os homens. “Fala-se muito sobre a próstata, mas o câncer de pênis também é uma realidade que precisa ser lembrada, entre outras doenças existentes. Vemos pacientes jovens com diagnóstico de câncer no pênis por não saberem higienizar de forma correta e, apesar de a internet ser uma aliada na busca pela informação, ela não deve anular ou substituir a procura do paciente por médicos, exames, vacinas ou até mesmo a higiene tradicional”, finaliza ela.

Conheça o setor de Qualidade e entenda sua importância para o cuidado assistencial

A enfermagem é uma profissão que está no centro do cuidado e traz consigo a responsabilidade de coordenar os diferentes processos que permeiam a assistência ao paciente. Como “agentes do cuidado”, além da condição cognitiva necessária, enfermeiros e enfermeiras precisam desenvolver uma visão mais ampliada do cuidar – e o setor de Qualidade é fundamental para que os profissionais enxerguem a importância do seu papel como colaboradores da instituição e da saúde. 

Entre os setores que sustentam a assistência ao paciente no ramo hospitalar, o setor de Qualidade tem um importante papel no apoio das diferentes áreas e na disseminação da cultura de segurança do paciente, uma vez que ela é impulsionadora dos processos de melhoria contínua e que permeiam toda a instituição hospitalar – contribuindo para caminhos cada vez mais seguros para o paciente, colaboradores e instituição.  

Há 35 anos na profissão, Regina Marcia Cassago é gerente do corpo de enfermagem do Hospital e Maternidade Ipiranga  Arujá (SP) e atuou por 15 anos no setor de Qualidade (em outra instituição). Para ela, a enfermagem – de maneira geral – tem uma conexão forte e inegável com o setor. “É uma área que está sempre à frente e pensando em como melhorar os processos de trabalho buscando, com isso, a melhoria da qualidade e da segurança do paciente”, conta a gerente. 

Indicadores como norte assistencial

Uma das atividades do setor de Qualidade é o monitoramento dos indicadores assistenciais. Esses indicadores estão ligados a diversos processos como assistência de enfermagem, protocolos gerenciados entre outros como, por exemplo, a incidência de lesão por pressão, índice de flebite, tempo porta ECG e mais. O monitoramento possibilita que o resultado de cada indicador seja analisado criticamente e melhorias sejam implementadas com maior agilidade e eficiência.

Segundo a gerente de enfermagem, é importante que o olhar sobre o processo assistencial seja ampliado para que se identifique todos os fatores contribuintes. “A Qualidade é um norte para enfermagem em termos de melhorias, pois estimula o profissional a olhar o processo e suas interfaces – o que gera benefício para toda a cadeia assistencial”, analisa ela. 

Qualidade, Educação e SCIH – a tríade do cuidado

A Qualidade atua multidisciplinarmente e tem especial proximidade com duas outras áreas também consideradas estratégicas e essenciais para a construção de uma assistência segura: a Educação Continuada e o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar. A Educação atua como agente de ampliação do conhecimento dos colaboradores possibilitando a disseminação de novas práticas, atualização de conhecimento e a uniformização do cuidado assistencial.

Enquanto SCIH, atua no monitoramento das boas práticas relacionadas à prevenção de infecções hospitalares e dos indicadores específicos da área. A gerente ressalta, ainda, que a Qualidade se faz por meio do envolvimento das pessoas que atuam na base do cuidado assistencial, pois são elas quem de fato realizam o cuidado e consolidam os processos e a cultura institucional.

“Costumo dizer que é uma tríade: você não consegue fazer Qualidade se não trabalhar com todas as pessoas envolvidas desde a base da operação até a ponta assistencial. E isso traz a possibilidade de correção de processos e de melhoria da assistência muito grande”, observa Regina.

O desafio do setor

Com sólida experiência em Qualidade, Regina implementou novos processos desde sua chegada à gerência do Hospital e Maternidade Ipiranga Arujá – e acredita que a principal competência desenvolvida foi a visão de macro processo. A gerente observa, ainda, que os profissionais precisam entender que suas ações refletem tanto positivamente quanto negativamente no desfecho do paciente. E cita os dois grandes desafios do setor: fazer a gestão de pessoas e processos e criar uma cultura de segurança dentro do corpo de enfermagem. 

“Os profissionais saem das instituições de ensino com pouco ou nenhum conhecimento sobre Qualidade. É um tema pouco abordado e, embora haja um movimento crescente e cada vez mais presente nas instituições de saúde, ainda há muito o que fazer para que a qualidade e a segurança do paciente se consolidem nos atos e atitudes dos profissionais. Precisamos inseri-los nesse contexto para caminharmos cada vez mais em direção a uma assistência segura”, finaliza.

#NovembroAzul: Precisamos falar de saúde masculina

Se o câncer é visto como um estigma social, quando se trata de saúde masculina ele é ainda maior. Apesar de vivermos em um mundo de avanços tecnológicos e de fácil (e rápido) acesso à informação, alguns tabus e preconceitos relacionados à saúde do homem existem; e movimentos de conscientização como o #NovembroAzul têm como objetivo esclarecer e promover a busca pela prevenção ativa e autocuidado do gênero masculino em relação ao câncer de próstata.

Quando falamos de câncer de próstata, os números são altos: até maio de 2020, mais de 65 mil homens foram diagnosticados com a doença e novos casos aumentam a cada ano segundo dados do Instituto Nacional de Câncer. Ainda segundo o INCA, esse é o tipo de tumor que mais mata homens – depois do câncer de pele não melanoma. Vista mundialmente como a maior força de trabalha na área da saúde, a enfermagem tem um papel fundamental no combate de doenças e no cuidar – e, principalmente, na prevenção delas.

A enfermeira navegadora Adriana Aparecida de Oliveira atua no setor de Oncologia do Hospital Samaritano Higienópolis (SP) e conta que o medo é o sentimento predominante nos homens quando o tema é câncer. Há oito anos atuando com pacientes oncológicos, ela afirma que é preciso quebrar o conceito negativo associado ao câncer para que a prevenção e autocuidado passem a ser rotina na vida de todos. 

“Notamos um medo por parte dos homens em relação ao que pode ser encontrado durante a busca ativa. Percebo que não há resistência em procurar a equipe de saúde, mas o diagnóstico em si é o grande decisor para que muitos evitem ou adiem os exames de rotina. Alguns costumam até justificar com aquela frase de ‘quem procura, acha’ e acredito que esse sentimento gera um bloqueio que, de certa forma, dificulta a cultura necessária do autocuidado”, conta Adriana.  

Como facilitadora de processos, a enfermeira navegadora busca estratégias para facilitar o percurso do paciente oncológico desde o diagnóstico da doença ao fim do tratamento. Certa de que a prevenção é essencial para o tratamento, Adriana acredita que cada câncer tem um nome e sobrenome – e entender o estadiamento da doença é essencial para atingir um resultado ainda melhor.

“É sabido que quanto mais precocemente descobrimos uma alteração como o câncer, as chances de cura e qualidade de vida são ainda maiores e com melhores condições de tratamento. Como enfermagem, nosso papel é orientar e conscientizar os pacientes para que nos relatem qualquer alteração ou sintoma que percebam – e isso se aplica para qualquer doença ou patologia”, afirma a enfermeira. 

Para Adriana, o maior desafio da oncologia está no estigma que a doença traz. “O medo em relação aos efeitos colaterais do tratamento e a morte ainda são presentes e, por mais que existam avanços significativos que visam minimizar os efeitos colaterais do tratamento, é uma doença que consideramos estigmatizante, infelizmente”, observa ela. 

“É preciso vencer o tabu do câncer, principalmente na saúde masculina. Alguns homens só procuram ajuda quando percebem alguma alteração e é preciso que entendam que, quando feito o exame previamente, a chance de cura ou sobrevida em casos positivos de diagnóstico é de até 90% dos casos. Temos que incentivar o autocuidado e a quebra de crenças limitantes”, finaliza. 

O que são Cuidados Paliativos e o papel da enfermagem no processo de cuidado

A morte é um tema sensível para a grande maioria das pessoas e o ‘medo’ nos faz adiar uma discussão importante e necessária: como desejamos passar pelo processo de morte. Enquanto o óbito é tabu para muitos, na área da saúde ele é discutido há anos desde o surgimento dos Cuidados Paliativos – conceito que visa o bem-estar e o alívio da dor do paciente por meio de um suporte que permite uma vida ativa, digna e confortável (dentro do possível) aos que estão frente – ou não – à finitude. 

Diferente do que se entende por Cuidados Paliativos, eles são indicados a todas as pessoas sem prognóstico de cura, doenças crônicas ou patologias irreversíveis – existentes não só na oncologia, como na pediatria e geriatria também. Apesar da ausência de cura como base da conduta, os CP não são oferecidos a pacientes necessariamente em fim de vida; há quadros em que é possível viver anos (a depender do diagnóstico ou situação em que se encontra) sob os cuidados – e a enfermagem tem papel fundamental nesse processo.

Vania Mansur é enfermeira oncológica do Hospital e Maternidade Madre Theodora em Campinas (SP) e atua em Cuidados Paliativos há um ano. Segundo ela, o(a) enfermeira(o) paliativista elabora um plano terapêutico individualizado (junto ao médico especialista da doença ou patologia) ao paciente para que a melhor conduta seja oferecida a ele no enfrentamento do processo de forma ativa.

“É importante entendermos que o paliativismo não é sobre o fim da vida e sim a busca incessante por uma qualidade de vida maior, com dignidade e respeito durante o enfrentamento da doença – ou patologia – até o seu falecimento. Os Cuidados Paliativos não prolongam a vida, mas diminuem a dor ao trazer conforto, reduzindo o sofrimento e adaptando o cenário dentro das possibilidades estruturais e do contexto familiar”, explica Vania. 

O objetivo principal do paliativismo está em amenizar a dor e sofrimento do paciente – seja de origem física, psicológica, social ou espiritual. Há pacientes em estágios “finais” que têm o desejo de comer ou beber algo específico e a enfermagem presta um suporte emocional também aos familiares que acompanham todo o processo – pois muitas vezes “‘adoecem” junto do enfermo, como conta a supervisora de enfermagem. 

“Ao criarmos o plano de cuidado, a família ou cuidadores são acionados para entendermos a realidade e o contexto em que o paciente está inserido para que a melhor conduta seja feita. Não são todas as famílias que têm estrutura emocional ou física para manter o paciente em casa – principalmente os que estão de fato no fim da vida – e, nesse caso, buscamos garantir com que ele consiga ter as pessoas queridas ao lado dentro da instituição para se despedir e passar o mais confortável possível pelo processo”, diz Vania. 

A equipe paliativista

Além da enfermagem e do corpo médico, existe uma equipe multidisciplinar de paliativistas como psicólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas, fisioterepeutas, assistentes sociais entre outros profissionais que, junto da equipe médica, estabelecem o melhor plano de cuidado ao paciente. 

“É um trabalho em conjunto onde respeitamos a individualidade do paciente e evitamos, quando possível, procedimentos invasivos. Alguns não querem ser entubados ou utilizar sonda nos últimos dias de vida; ir a óbito em uma UTI e nosso trabalho é tentar adaptar o cenário através das condições dele, buscando o melhor conforto e reduzindo a dor emocional”, conta a enfermeira.

O olhar humanizado da enfermagem

Para Vania, os Cuidados Paliativos precisam de mais visibilidade e um olhar mais humano. “Notamos a falta de informação tanto dos profissionais da saúde quanto do público de forma geral a respeito da conduta de cuidado. Se fala pouco sobre o tema e, por se tratar de um cenário mal explorado, o entendimento equivocado acontece. Existe um preconceito com as tratativas paliativas e é preciso quebrar essa visão cultural”, observa ela. 

Ao ser questionada sobre o enfrentamento da morte, Vania conta que é preciso ir além do conhecimento técnico: a quebra de crenças é essencial para atuar nesse campo. “Quando iniciei na oncologia, a morte me abalava muito, mas desde que entrei no universo paliativo minha visão mudou completamente sobre o processo de finamento. Hoje converso muito com meu marido sobre como eu gostaria de enfrentar a morte e naturalmente passou a ser um tema mais leve”, afirma.

“A quebra do preconceito e do medo precisam ser trabalhados primeiro em nós, profissionais, para então aplicarmos e levarmos ao paciente. Para eu falar do processo de morte, preciso entender como ele funciona e meu equilíbrio emocional precisa estar alinhado para atuar com êxito. Por isso, uma enfermagem bem capacitada e com olhar humanizado é o que trará segurança e equilíbrio ao paciente e familiares em um momento delicado”, finaliza. 

Além da assistência ao paciente: o desafio da gestão de pessoas na enfermagem

Liderar é uma das habilidades mais importantes no mercado de trabalho e requer empatia e bom relacionamento interpessoal em primeiro lugar. Através de um diálogo claro e transparente, o(a) líder desenvolve papel fundamental ao promover um ambiente agradável aos colaboradores e faz com que a missão, visão e valores da organização estejam alinhados aos objetivos da equipe. 

Tida como a maior força de trabalho na área da saúde, a enfermagem tem como premissa a empatia na gestão do cuidado e, para os que atuam como gerentes, o relacionamento interpessoal é ainda maior. Responsáveis por atuar em três frentes diferentes – pacientes, colaboradores e processos administrativos -, os gerentes de enfermagem precisam de aptidão e inteligência emocional para conduzir e proporcionar um ambiente saudável à todas as ‘pontas’ do cuidado.

Há 26 anos na área, Juliana de Souza Melo Mota é gerente de enfermagem do Hospital e Maternidade Santa Helena e é responsável por gerir 550 colaboradores – entre auxiliares (maior quadro), técnicos(as) e enfermeiros(as). Com objetivo de oferecer a melhor assistência e cuidado aos pacientes por meio de equipes capacitadas e amparadas, ela acredita que a educação faz parte das habilidades dos que optam por atuar na enfermagem.   

“Enfermeiros(as) são educadores antes de qualquer coisa, pois exercem o tempo todo o papel de orientar pacientes, familiares e acompanhantes, técnicos e auxiliares de enfermagem, expondo as necessidades, aplicando conhecimento e adotando medidas claras e objetivas para desdobrar aos colaboradores que participam ativamente ou não da assistência como um todo”, afirma Juliana. 

Ao ser questionada sobre gerir uma equipe grande de trabalho, ela observa: “Quando penso em pessoas, entendo que cada um tem sua necessidade: o paciente tem uma e o colaborador tem outra; meu papel como líder é olhar para todos com um olhar mais humano para conseguir suprir o que cada indivíduo precisa. É uma troca constante e, quando há sincronia com o colaborador, ele passa a estar apto e pronto para entregar a melhor assistência ao paciente (que é nosso maior objetivo como enfermagem).”

Ter convicção do que se faz é importante no dia a dia como gestor(a) e a transparência do líder com os colaboradores é essencial, segundo Juliana. Desde a sua chegada ao Santa Helena em 2017, a gerente de enfermagem propôs uma mudança de modelo mental na área e implementou processos e protocolos – gerando e agregando mais valor ao hospital. Uma das mudanças foi na condução da admissão de profissionais ao quadro de enfermagem. 

“Participo de todos os processos seletivos da área no hospital porque acredito que identificar o perfil do colaborador é fundamental para que o processo (no início e durante o trabalho) seja agradável a ele e, por consequência, ao paciente – que será cuidado e assistido por. Há pessoas que encaixam melhor no Centro Cirúrgico por demonstrarem um olhar mais minucioso e rápida absorção de informação; outros, mais ágeis, performam melhor em pronto-socorro. Dessa forma, procuramos estabelecer um ambiente ideal para cada profissional”, explica Juliana.

O desafio da “nova era” da enfermagem 

Além das habilidades necessárias e responsabilidades de um líder, o conflito de geração é um aspecto importante e que não deve ser deixado de lado quando o assunto é gestão de pessoas. Em um mundo cada vez mais veloz e tecnológico, Juliana afirma que o desafio para quem está na gestão é gerenciar com sabedoria e entendimento as equipes de trabalho e suas diferenças culturais e mentais. 

“Existe uma diferença de gerações inegável e, atualmente, é comum encontrar pessoas mais tecnológicas e menos sensíveis, digamos. A enfermagem é doação o tempo inteiro e é sabido que ninguém chega pronto, mas o entendimento e esclarecimento de que não é uma área em que o colaborador realiza algumas demandas e depois vai embora é importante. Trabalhamos com pessoas e a empatia tem que acontecer em primeiro lugar; não tem como ser tecnicista o tempo todo”, afirma a gerente.

“A enfermagem atua 24 horas e somos a sequência do trabalho uns dos outros, como uma engrenagem que movimenta todo o hospital. Ouço algumas pessoas dizerem que a enfermagem é por amor, mas é uma troca – e não é só amor. É preciso ter noção da responsabilidade que cada colaborador tem na corporação e com o paciente. E fazer com que cada um entenda o processo de cuidar, independente da capacitação técnica ou dos subsídios existentes. Manter viva a essência de gente cuidando de gente e a compaixão no que é feito é nossa maior missão”, finaliza. 

Central de Material e Esterilização: entenda mais sobre o ‘coração’ hospitalar

Conhecida como “coração hospitalar”, a Central de Material e Esterilização é responsável por processar todos os artigos médicos e instrumentais dos setores de um hospital – cuidando da limpeza, acondicionamento, esterilização e distribuição dos mesmos. Da porta de entrada à sala de emergência, a enfermagem necessita de algum material de origem da CME como kit sutura, bandeja de punção, dispositivos cirúrgicos descartáveis como os cateteres, materiais permanentes como as caixas cirúrgicas com instrumentais específicos de aço inox ou algum outro tipo de material que seja passível de esterilização. 

Fundamental em todos os aspectos de segurança e higiene, a CME desenvolve um papel importante: mitigar riscos de infecção hospitalar e promover melhor segurança assistencial. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 234 milhões de pacientes são operados por ano em todo o mundo; mas um milhão de pessoas morrem em decorrência de infecções hospitalares e 7 milhões apresentam complicações no pós operatório – o que reforça ainda mais a atuação e responsabilidade da enfermagem nesse setor.  

Para Roberta Poubell Dourado Costa, supervisora da CME do Americas Medical City no Rio de Janeiro (RJ), a conscientização de um ambiente limpo e seguro é fundamental para quem está na ponta assistencial. Responsável por avaliar todas as etapas do processo e equipe do setor, ela desenvolve um trabalho em conjunto com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar na elaboração de protocolos operacionais e treinamentos dos profissionais da enfermagem.

“Todas as áreas assistenciais de um hospital têm itens reprocessados e que passam pela CME. Nosso trabalho é em conjunto com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) para construção e aprovação de protocolos de segurança, promovendo a prevenção de infecção ao entregar materiais limpos, desinfetados e esterilizados com todas as garantias e testes existentes no mercado, qualificação correta de equipamentos e validação dos processos”, conta Roberta. 

Além de gerir uma equipe de 40 profissionais entre técnicos(as) e enfermeiros(as), a supervisora fica em contato direto com os gestores de cada área do hospital para que a dinâmica de trabalho e eventuais conflitos sejam solucionados. Por se tratar de uma limpeza minuciosa, diversos testes são feitos nos equipamentos – como o ATP, que mensura a quantidade de sujidade do instrumental. Além dele, é feita uma coleta de amostra para averiguar se a limpeza está dentro do padrão exigido. 

“Todos os equipamentos utilizados, como desinfectador, lavadora ultrasônica, autoclave e seladora de grau cirúrgico, passam por uma qualificação de desempenho com técnicos especializados em nosso setor que avaliam o equipamento como um todo. São feitos também testes e manutenções preventivas e corretivas no dia a dia para avaliar as peças em si”, afirma a supervisora de enfermagem.

Apesar de ser uma área vital ao hospital, a CME precisa ocupar mais espaço nas grades curriculares, segundo Roberta. “Existe um déficit de profissionais nessa área porque tanto a graduação de Enfermagem quanto o curso técnico não fornecem subsídios para que as pessoas conheçam, entendam e queiram atuar no setor. A trajetória obrigatória do(a) enfermeiro(a) no Centro Cirúrgico – setor que nos ajuda a entender o que é utilizado em uma cirurgia e o preparo específico – o faz expandir o conhecimento e encontrar a CME no meio do caminho”, explica. 

Quem atua na CME é apaixonado por instrumental e tecnologia, conta a supervisora. “Trabalhamos hoje com uma tecnologia incrível e, nos últimos dez anos, houve um avanço tecnológico grandioso que nos exige capacitação constante para acompanhar essa evolução. Manuseamos equipamentos específicos e essenciais – e gostar da linguagem técnica é primordial para um setor seguro”, finaliza Roberta.

#RelatosDeUmEnfermeiro: eu luto contra o câncer, mas não é ele quem vai me derrubar

“Ao fazer o autoexame de mama no início de 2020, notei um nódulo no seio esquerdo e, ao realizar o exame de imagem, o diagnóstico confirmava o câncer; um subtipo agressivo denominado como triplo-negativo (com maior chance de retorno da doença depois de um prévio controle, levando à metástase e a uma sobrevida menor do que os outros tipos de câncer). Poucos dias depois, iniciei o tratamento de quimioterapia, mas com o aumento significativo do nódulo, precisei fazer a retirada total das mamas e esvaziamento da axila esquerda. 

Durante a cirurgia da mama, o nódulo sangrou muito e o procedimento com duração prevista de uma hora levou seis, possibilitando apenas a retirada do quadrante. A biópsia do nódulo confirmava a gravidade da doença e precisei seguir com o tratamento quimioterápico (dessa vez oral) até a segunda cirurgia para a retirada completa das mamas. Ao todo são oito comprimidos diários – quatro pela manhã e quatro pela tarde – por seis meses em ciclos de quinze dias, para, então, iniciar o processo de radioterapia. 

Quando me olhei no espelho e vi o cateter Port-A-Cath (dispositivo utilizado para administração de medicamentos e coleta de sangue em pacientes oncológicos) em meu pescoço, a vontade de arrancar e acabar com aquilo em um momento de desespero foi grande. Parei, fechei os olhos, busquei o ar e respirei fundo; deixei a água escorrer pelo meu corpo em busca de autocontrole até a angústia e ansiedade passarem. Naquele momento eu entendi o quanto podemos controlar nossa mente e que eu poderia ser mais forte do que imaginava. 

Não é um diagnóstico fácil de receber, confesso. Me senti atordoada, sem saber o que fazer, mas, desde que me tornei mãe, descobri essa força inimaginável habitada em mim. No início do tratamento, voltava para casa desolada – mesmo sem os temidos efeitos colaterais. Só quem passa pela quimioterapia entende o que é o processo; as dores por todo o corpo e o sofrimento. Passado um tempo, coloquei na cabeça que o câncer não me derrubaria e, desde então, sigo firme, vivendo um dia de cada vez e sem ansiar pelo amanhã.

A enfermagem me deu força para enfrentar o processo. Nós, como profissionais da área – bem ou mal – sabemos os riscos, a possibilidade da metástase e todas as possíveis etapas da doença. A profissão me ajudou e ajuda a enxergar a força que temos como humanos e me incentiva a mostrar aos demais que o câncer ou qualquer outra doença podem ser enfrentadas de uma maneira diferente, sem associar à morte. 

Carrego o apoio da minha família e amigos como inspiração. Eu ainda luto contra o câncer e sei que tudo pode acontecer, mas optei por enxergá-lo como uma gripe e que logo passará. E às mulheres que enfrentam o câncer hoje, eu digo: vivam a vida como se não houvesse o amanhã! Não se preocupem demais. Hoje estamos bem e amanhã talvez não estejamos. O câncer mata, sim, mas o que você puder fazer hoje para ajudar o próximo, orientar, escutar, abraçar ou dizer o quanto você o ama, faça isso. Respira mais um pouco e ‘cava’ no fundo do teu peito porque existe uma força infinita dentro de nós”.