Como manter a saúde mental da enfermagem quando a carga de trabalho aumenta

No Brasil, depressão e ansiedade são as principais causas de adoecimento e afastamento do trabalho, segundo pesquisa da Secretaria de Relações do Trabalho (SRT). Para os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus, a preocupação em contaminar familiares ou excesso de pacientes infectados podem tornar a jornada de trabalho exaustiva. O esgotamento e insegurança constante podem atrapalhar as atividades e desempenho, mas é a saúde mental dos colaboradores que pede atenção. 

Adepta a prática de atividade física diária, a enfermeira Zorilda Lopes do Hospital Next Santo Amaro, em São Paulo, marca presença nas aulas online da academia desde que a mesma foi fechada (por conta da pandemia). Sem fugir do compromisso que estabeleceu com o próprio bem-estar, o exercício em casa foi uma das soluções encontradas pela paulista para lidar com o aumento da jornada de trabalho nos últimos meses.

“Movimentar o corpo três vezes por semana me ajuda a aliviar o estresse e enfrentar o medo. Ainda fico apreensiva com a pandemia porque penso muito na minha família e em não contaminá-la. Para nós, enfermeiros, essa é uma situação inerente à profissão, pois fizemos um juramento de trabalhar todos os dias em função do próximo. Mas, o medo de infectar nossos filhos, marido ou a mãe é inevitável. Então é importante se movimentar para não adoecer a mente e deixar de viver”, conta Zorilda. 

Além das aulas online, a enfermeira de 38 anos mergulha na espiritualidade para encontrar força e equilíbrio. Na área há 15 anos, Zorilda acredita que sua fé é um grande combustível para saúde mental. 

“O lado espiritual me ajuda bastante a superar e encarar os desafios da vida. Acredito muito que, nesse momento de pandemia, o mundo inteiro se reconectou com seu ‘eu interior’ em busca de lucidez. A fé nos ajuda a encarar as situações de outra forma e é ela que me ajuda a todo momento”, finaliza a enfermeira. 

Enfermeira relata como foram seus primeiros dias no combate à pandemia

A enfermeira Valeska Kelly Trentini, de 36 anos, contou como foram os primeiros dias de trabalho no início da pandemia do novo coronavírus, em março deste ano (2020). 

“Trabalho no Hospital Butantã há doze anos – o único em que atuei profissionalmente – e, curiosamente, onde eu nasci. Mais recentemente, no início deste ano, trabalhava no Centro Cirúrgico e, por conta da pandemia, as cirurgias foram canceladas. Então fui remanejada junto com alguns colaboradores para a UTI tratar os pacientes com a COVID-19.

O início da pandemia foi muito difícil pra mim no sentido de lidar com o desconhecido. O medo, a incerteza do contágio, pessoas morrendo e você se vendo ali, na linha de frente, tratando pacientes infectados; era inevitável o sentimento de insegurança. Os profissionais que foram recrutados para estar ali eram novos no setor (de UTI) e, por serem pacientes com o vírus, a insegurança de todos era maior ainda. 

Precisei reunir a equipe muitas vezes para dar incentivo e força. Por ironia da vida, a nossa primeira paciente internada foi uma colega e amiga de profissão. Ela chegou com cateter e dois dias depois precisou ser entubada. Foi um choque! Sentimos muito e foi preciso coragem e apoio conjunto para seguir. E seguimos. Fortes. 

A cada paciente recuperado, uma conquista para nós. Ao receberem alta, aplaudimos um por um com louvor. Fazíamos uma festa! Eles se mostravam muito gratos, mas, para nós, contribuir para aquela vitória era uma felicidade sem fim. Aos que não puderam vencer a batalha, nossos corações permaneciam profundamente tristes. Nem todos puderam vencer. 

Com o passar dos dias, alguns hábitos foram mudados. Moro próximo à minha mãe e sempre que podia, estava na casa dela antes do isolamento. Mesmo com a tecnologia das chamadas de vídeo, senti bastante o afastamento físico – mais ainda do meu filho. Ainda sinto os efeitos da pandemia, mas também me sinto grata e orgulhosa por tudo que fizemos – e estamos fazendo – na UTI. O aprendizado que tive todo esse tempo, a vivência, a visão de vida e, principalmente, da minha profissão, não têm preço.

A vida é mesmo um fio e não sabemos o dia de amanhã. E, apesar de tudo, me sinto confiante. Prefiro me sentir assim, esperançosa, e acreditar que em breve teremos uma solução real para todo esse caos.”  

Enfermagem: profissão do presente e do futuro atrai atenção na pandemia

A área da saúde ganhou destaque nos últimos anos graças ao avanço da ciência e da tecnologia. Mais recentemente, chamou a atenção de muitos devido ao enfrentamento da pandemia do novo Coronavírus – um desafio diário para os profissionais que atuam na linha de frente dessa e outras enfermidades. A árdua rotina desses heróis no combate à COVID-19 sensibilizou o mundo e conquistou olhares de quem deseja dedicar a vida aos cuidados com o próximo.

A carreira de enfermagem é uma das mais completas e integrativas na área da saúde – e tem sido a mais procurada mundialmente. Seu amplo leque de especialidades permite que os profissionais atuem em todos os ambientes clínicos – seja com crianças, idosos, vítimas de violência, traumas. Além de serem extremamente importantes no atendimento emergencial, por exemplo, os enfermeiros se colocam próximos dos pacientes e familiares, transmitindo orientação, conforto e força. 

Os enfermeiros têm acesso a informações que, muitas vezes, podem auxiliar no tratamento e diagnóstico de um paciente, tendo papel fundamental para evolução de quem se encontra vulnerável. Para o Paulo Matheus Pereira, a enfermagem pode ser traduzida em uma palavra: amor. Aos quase 34 anos, o paulista atua como técnico de enfermagem há sete. Iniciou a carreira em uma clínica geriátrica, passou pelo atendimento de pronto-socorro adulto, migrou para internação pediátrica e hoje trabalha na UTI pediátrica do Hospital Santa Helena, da rede Amil, em São Paulo. Realizado, Paulo não tem dúvida de que fez a escolha certa. 

“Além de ser uma área ampla para crescer profissionalmente, existem diversas maneiras de ajudar ao próximo, seja em clínica, hospital, emergência ou administrativo. Prestar esse cuidado é muito gratificante não só profissionalmente, mas como ser humano. Nós criamos um elo de carinho com cada paciente e os vemos quase como filhos; se estão alegres, nos alegramos também, mas se estão tristes, sofremos junto. A dedicação e sentimento de troca não tem preço”, explica Paulo.

Considerada uma profissão que ganhará ainda mais solidez no futuro, a trajetória da enfermagem é longa – e vencer as próprias limitações é uma missão para quem deseja seguir a carreira, segundo Paulo Pereira. Com o auxílio da tecnologia, o mercado ganha força e consequentemente cresce a demanda por profissionais especializados, mas é preciso além de técnica e dedicação, alerta ele.

“Atenção, cuidado e empatia são fundamentais no nosso dia a dia, além do conhecimento técnico. Às vezes não temos respostas. Ou, quando temos, nem sempre são positivas. O nosso maior desafio é demonstrar força àquelas pessoas, e trabalhar o psicológico é fundamental para levantar a cabeça diariamente e seguir com disposição e afeto. Fazemos o possível e impossível para ser a diferença na vida daquelas pessoas. E cada evolução é uma vitória para todos nós”, finaliza o enfermeiro.

Novos (antigos) hábitos: como acontece o uso de EPIs na época de pandemia

Cuidado e higiene são palavras que fazem parte do dia a dia dos profissionais da saúde há um tempo. Mas, em época de pandemia do Coronavírus, a atenção precisou ser dobrada. Mais expostos, os técnicos de enfermagem e enfermeiros têm três vezes mais chances de contaminação – o que gera mudanças no protocolo de segurança da categoria. Com a atual realidade, o uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) aumentou e, com isso, uma nova rotina surgiu.

Além dos equipamentos de segurança tradicionais, como luvas, óculos, touca e máscara, o jaleco e o face shield (protetor facial)ganharam importância, entrando para lista de itens obrigatórios durante a jornada de trabalho. Para a Aline Oliveira da Silva, enfermeira assistencial da Unidade Intensiva do Hospital Pasteur, no Rio de Janeiro, o uso de EPIs é crucial para a prevenção da COVID-19. Segundo a carioca, a preocupação em ter materiais de proteção próximos ao paciente e nos corredores é unânime. 

“Antes tínhamos a preocupação de usar os equipamentos de proteção, mas de uma maneira mais simples. Sabíamos da importância em nos proteger e proteger os pacientes em momentos específicos de procedimento, por exemplo, mas era algo remoto. Hoje, a necessidade desses materiais é real, é notória. O risco de contaminação está próximo a nós, então o uso dos EPIs se tornou ainda mais essencial”, diz Aline.

A rotina da carioca é a mesma há quatro meses: ao chegar em casa, tira os sapatos, coloca as vestimentas da rua e uniforme de trabalho na máquina de lavar, separa os pertences como crachá, chave e celular para higienizá-los, e toma um banho completo. Ela adotou os desinfetantes concentrados além do álcool em gel para eliminar qualquer possibilidade de contaminação. Com uma filha de um ano e o marido em casa, Aline precisou estabelecer hábitos novos – e ainda sente os efeitos da mudança. “Tudo é muito difícil pra nós, enfermeiros, pelo receio de contaminar nossos familiares. Lidamos o tempo todo com pacientes que estão infectados e não podemos fazer a quarentena, já que estamos na linha de frente”, conta. Aline conhece o impacto do vírus: “eu contraí o vírus no início da pandemia e, na época, minha filha tinha entre sete e oito meses. Parei de amamentar por receio da contaminação e foi um período conturbado. Não podia pegá-la no colo e ela, por ser pequena, não entendia a situação. Tinha que cozinhar, arrumar a casa, ajeitar as coisas dela. O uso dos EPIs, então, são uma realidade antiga, mas que ganharam um novo grau de importância, nos ajudando muito”, finaliza a enfermeira.

Terapia se torna iniciativa importante para os profissionais da saúde

A psicologia é uma ciência que trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano e suas interações com um ambiente físico e social. Na enfermagem, ela se torna fundamental para a preparação do profissional ao lidar com a realidade de trabalho. O paciente, ao ser acometido por uma doença, entra em um estado de abalo emocional, de medo e angústia, fazendo com que o papel do enfermeiro vá além – e acolher e escutar o enfermo e seus familiares com empatia e atenção pede também um cuidado pessoal. 

Ao mesmo tempo em que se cuida do outro, é preciso cuidar de si. Assim, a terapia ou acompanhamento psicólogo está cada vez mais presente na vida dos profissionais da saúde. É o caso da Karin Cristina da Silva, enfermeira da Clínica Médica e Oncologia do Hospital Santa Helena, em São Caetano do Sul (SP). Casada com um enfermeiro e mãe de duas crianças, ela optou pela terapia como aliada. 

“Desabafo meus medos e anseios na terapia, um acompanhamento com um psicólogo fundamental para que a rotina de casa não seja prejudicada. Eu ainda tenho muita dificuldade em separar as coisas, mas optamos por não compartilhar muito o trabalho até para evitar que nossos filhos ouçam”, comenta ela. 

Vinda de uma família de enfermeiros, Karin cresceu assistindo de perto a rotina da mãe e a dedicação diária que pede a profissão. Apaixonada pela área em que atua há 25 anos, a paulista (natural de Votuporanga) não se vê fazendo outra coisa na vida – e enxerga o trabalho de um modo muito próprio. 

“Trabalhar é, em si, uma terapia pra mim. Meus pacientes mandam mensagem, querem atenção e conversar. Brinco que somos como terapeutas e amigos, além de enfermeiros. Nos tornamos uma referência aos pacientes e familiares, e é preciso estar bem para servir de força. Hoje, especificamente, estamos ansiosos para que se defina a situação da COVID-19, então são dias longos onde cuidar da mente é necessário”, finaliza Karin.  

Estudo aponta que enfermeiros estão mais propensos à depressão

A cultura de bem estar e ambientes de descompressão são temas presentes na maior parte das empresas nos últimos anos. Promover a saúde física, mental e emocional dos colaboradores traz benefícios tangíveis – como a redução de erros, faltas e aquisição de novos talentos. Na área da saúde, o assunto se torna ainda mais sério. Responsáveis pelo cuidado e amparo efetivo de pacientes doentes ou com vida em risco, os enfermeiros enfrentam diariamente o estresse em busca de calmaria e precisam estar atentos a mudanças.

Um estudo da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, apontou que a depressão é uma das doenças mais comuns entre enfermeiros – e está ligada a uma maior probabilidade de cometer erros. Entre os profissionais ativos entrevistados, 71% relataram estar com a saúde física e mental abaixo do ideal.

Para a enfermeira Isabella Gonzaga, do Hospital Panamericano do Rio de Janeiro, RJ, o excesso de trabalho, a falta de estrutura e autocuidado podem acarretar não só a depressão como a síndrome de burnout (esgotamento físico e mental intenso). Por conhecer colegas que enfrentam ou já enfrentaram a doença, a carioca se previne: utiliza o jump (atividade física na cama elástica) para driblar os problemas do dia a dia. 

“A cama elástica me dá força para seguir firme no trabalho, principalmente em tempos de pandemia. Com as academias fechadas, pular ajuda a relaxar, além de contribuir para a minha saúde física e mental. Tenho amigas psicólogas que me incentivam a terapia e acredito muito na importância de ser assistido. Conversar é essencial para adotar visões de mundo”, conta a enfermeira.

Sempre atenta com a própria saúde, Isabella precisou adaptar a alimentação quando notou o aumento de gasto calórico nos dias de trabalho. Sua relação de cuidado e atenção com a área começou, na verdade, aos seis anos, quando precisou ser internada às pressas ao ser diagnosticada com inépcia abdominal – uma memória difícil mas misturada com o carinho que ela sentiu por parte dos profissionais de enfermagem que cuidaram dela. 

Hoje, a enfermeira percebe a importância do cuidado (e do autocuidado). “Achava incrível o amor e manuseio de medicações da equipe quando era pequena. Depois daquela experiência, cresci com o objetivo de fazer parte daquele universo e ajudar o próximo. Hoje, com cinco anos de carreira, meus olhos brilham quando falo da minha profissão. E é por isso que observo ativamente meu corpo e mente, pois para servir com excelência é preciso estar apto”, finaliza Isabella.